A sua leveza

sábado, outubro 24, 2015

Seus olhares se cruzaram pela primeira vez próximo a uma antiga livraria no centro da cidade. Ele lia um jornal que quase ninguém mais comprava e já estava quase extinto e suas pernas estavam cruzadas para apoia-lo. Ela procurava uma moeda de cinqüenta centavos no fundo da bolsa para facilitar o troco da revista de ciências que comprava todo início de mês, o velho jornaleiro Elias já até a conhecia e reservava o seu exemplar, nem que ela atrasasse dias para buscá-lo, era de praxe, esse era um dos poucos metódicos rituais que ela adotara. 

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Enquanto seu nervosismo percorria cada vez mais seus impulsos e sua mão tornava-se mais fervorosa no tecido da bolsa, percebeu alguém passar o braço ao seu lado e o jornaleiro Elias entregar-lhe o troco junto ao exemplar. Ela baixou o olhar e observou desde a bota marrom que virara moda, o jeans azul, a camiseta preta e então seu olhar. Um súbito palpitar a atingiu e ela não entendeu nada. Uma moeda caiu e ele agachou para pegar, subindo vagarosamente e debruçando seu olhar no dela, que baixinho sussurrou um "obrigada" e recebeu um sorriso em troca. "Gosta de ciências?" ele perguntou saindo num passo que a convidava a acompanha-lo. Ela hesitou e olhou o jornaleiro que já arrumava as revistas para exposição. Maluquice seria acompanhar aquele estranho de olhar doce, que sem mais nem menos facilitara seu troco e ainda puxara assunto. 

"Por que me ajudou com o troco?" perguntou ignorando sua timidez e aderindo ao truque dos 3 segundos que diz que você tem três segundos até a timidez te pegar de jeito. Ele riu "ouvi o tio Elias perguntando se tinha 50 centavos e a vi vasculhando a bolsa fervorosamente, não me custou nada." Ele sorriu e a olhou fixamente. Seu olhar esverdeado pressionou o dela e então algo a tocou, algo que há alguns anos não via, um sopro morno passou por seu rosto e ela sorriu "sim, eu gosto de ciências". 

Ele a abraçou e afastou o cabelo que fugiu do rabo de cavalo, apoiando o rosto no ombro dela e beijando-lhe a lateral do rosto. Ela suspirou e fechou os olhos e sentiu. Sentir. Palavra que adotou para sua vida, um tipo de mantra entre alguns outros que a fazia sentir-se livre dentro de si mesma e passar sua leveza para quem precisasse, a leveza que ele buscava toda vez que debruçava seu olhar no dela. Algum tempo passara e o toque ainda era o mesmo, a pulsação ainda acelerava e o tempo frio tornava-se o mais puro verão ao redor dela, os minutos antes de adentrarem horas ao lado do outro ainda causava a estranha e deliciosa sensação de primeiras vezes. Ele mostrara a ela valores que ela perdeu ao dar atenção a vozes que não adicionavam em sua luz, trouxe-lhe sensações perdidas e a coragem que lhe faltava em lutar e insistir no que acreditava. Ela o fez adentrar seu mundo algumas vezes até utópico demais, contou-lhe segredos da alma e mostrou os tesouros escritos guardados no fundo do baú e em seu coração, e cada sorriso dele ao ler suas linhas e entrelinhas acompanhados de um olhar de incentivo a faziam acreditar que humanidade ainda existe, e que anjos ainda podem sussurrar pitadas de esperança em seu ouvido todos os dias de manhã.

 ♥

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3 Comentários

  1. Que históoooooria! *-------*
    Adorei, Brunna! Tão intenso o encontro deles.
    Tem continuação?

    www.ultimobiscoito.com

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    Respostas
    1. Oii Nay!
      Que bom que gostou. Infelizmente não pensei em continuar, mas quem sabe... :)
      Beijos!

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  2. Ah eu acho que você deve continuar sim!! eu amei a história, você escreve muito bem *-*

    Beijos,
    rodoviadezenove.com.br

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Obrigada pela visita! ♥

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