"Sou novo na cidade"

domingo, setembro 20, 2015

Eu ainda me lembro do sua carinha de perdido na frente da banca pedindo informação com cara de quem fora abandonado no meio de um tiroteio na cidade grande. Pedia as direções da rua da sua primeira entrevista em São Paulo, e o jornaleiro não fazia ideia para onde te mandar. Eu, como costumeiramente em todas as manhãs antes de sair para o estágio, estava com o jornal tampando o rosto, enfurnada nas crônicas de todos os dias. Seu rosto me causou tanta pena que engoli a timidez e gritei de longe: "ei, posso te ajudar.". A sua rua era caminho da minha, e nesse encontro ao acaso, me seguiu e contou do seu caso com a cidade. Era publicitário, recém saído da faculdade, fora estudar no interior depois de anos de muito estudo e pouca diversão. Corei ao te ouvir, eu era puro desencontro com estudos para o vestibular em minha adolescência. Era de Santa Catarina, mas sempre sonhou em morar na grande São Paulo e ter reconhecimento em uma grande empresa publicitária. Sorri com teu entusiasmo, tua vontade agarrada no sorriso jovial.


Não sou de acreditar em coincidências, mas naquela semana tive certeza que elas conspiravam juntamente com o destino. Eu estava atrasada, e fechava a porta do apartamento numa velocidade assustadora. O molho de chaves caiu no tapete onde lia-se "Home is where your heart is", baixei para pegar e notei que não era a única em ação de resgate. Soltei-as e esperei para ver quem era a alma boa que se propôs a me ajudar naquele momento. Era você. O moço novo na cidade. E enquanto movimentávamos naquela leve sintonia levantando numa ilusória briga para a guarda das chaves, suas pupilas dilataram, e quase que vi as minhas acompanharem  como num espelho o movimentos das suas. Saímos juntos para encarar nossas rotinas fora daqueles apartamentos, e dessa vez, da portaria para fora. Foi a segunda vez que eu o vira.

Se eu piscar agora, posso comparar os míseros segundos que passaram com o que enquadra a velocidade com que nos aproximamos. A naturalidade que desenvolvemos entre nós foi crucial, algo que eu nunca imaginaria em minha vida. Sabe, quando você conhece várias pessoas e, a dedo, seleciona algumas para tentar imaginar como companheira de finais de semana, e as perde de vista da mesma maneira que aquele ônibus que passou segundos antes de você chegar ao ponto? Pois bem, desacreditei. E relutante, te aceitei na minha vida, estranhando a leveza das conversas fáceis, e dos sorrisos espontâneos. Os gostos distintos que se fundiam e faziam-nos saborear o mundo um do outro, com direito a críticas rudes vez ou outra. Sempre acreditei que relacionamentos não eram compostos apenas dos botões das rosas, às vezes escorrega-se nos espinhos e nos machucamos. Foi assim. Mas foi ótimo.

Meus pés arrastam-se no gramado daquele nosso batizado "templo", sob aquela árvore que vimos ainda pequena, estou sim a contorná-la, e quem me vê me cogita a loucura, no entanto eu só estou contando os minutos, eliminando-os dos meus dias e revivendo um dos nossos rituais malucos. Foi aqui, creio que no décimo quinto domingo seguido que vinhamos ao Ibirapuera que você me cutucou na perna e sussurrou se podia fazer uma pergunta. Desconfiada, e encafifada com o se tom de voz que nunca tomou aquele timbre, assenti. E então você levantou a cabeça da grama, e sim, seu cabelo desgrenhado estava coberto de fiapos verdes, fazendo-me logo levar as mãos para tirá-los dali. Você me segurou e disse que se eu fizesse aquilo não seria um momento espontâneo, mas que levaria na memoria minha expressão frustrada. Você ajeitou-se ao meu lado, e eu observei desconfortável seu cabelo, você riu e me olhou. Suas pupilas dilataram, e como da primeira vez em que o vi, as minhas invejarem as suas e as imitaram. "Namora comigo?", e eu finalmente tirei aquele fiapo pendurado bem nos fios de cabelo da sua testa, lançando-lhe um breve sorriso e me atirando em seu abraço. "Mas que pergunta idiota e necessária. Sim!" e rimos um da cara do outro, pra variar.

Dois anos e meio estou eu aqui, no mesmo lugar, com o celular nas mãos e a ansiedade burlando minha sanidade. Já sentada na grama, meus pés protagonizam uma dança desconexa enquanto acariciam a grama úmida. Ouço um barulho de galho quebrando e salto para olhar. A verdade é que eu não precisava olhar para descobrir, aqui a intuição já te tem com sinestesia, reconhece de longe. Aperto os olhos quando as lentes resolvem desfocar minha visão que focou tanto o mesmo ponto tantos minutos, e quando enfim a paisagem coloca-se nítida à a minha frente o vejo parado. Me olha com aquele sorriso maroto de garoto que tanto aprecio, seu olhar aperta-se naquela intensidade que me tira o chão, e então retira uma folha da bolsa e ergue-a "ei, pode me ajudar?", há algo pendurado que me tira uma risada. Balanço a cabeça e digo "Você é maluco", e você finalmente vem o meu encontro.

You Might Also Like

1 Comentários

  1. Esses encontros, esse acaso nos trazem as melhores coisas da vida. Ótimo texto.

    ResponderExcluir

Obrigada pela visita! ♥

Popular Posts

Like us on Facebook

Flickr Images

Subscribe