Como era o nosso gostar

domingo, setembro 06, 2015

Não era bem um frio na barriga, era o coração pulando de alegria e uma vontade de se esconder e observar. Tratava-se de timidez e o mundo mais colorido, e a vontade do dia reiniciar e se deparar com aquele andar despreocupado tropeçar com o seu e juntos entrarem na sala. Ele era o dono do nosso e do meu coração. Eu o encarava como o tal do amor.

Me aconteceu três vezes. O primeiro foi na infância, nos tornamos amigos porque a professora nos colocou no mesmo grupo de desenho e olhamos a paisagem de montanhas, um sol, e um rio um do outro e então em uma das reuniões nossas mães se conheceram, e estar na casa um do outro era um tipo de domingo em família (que eu amava). O segundo foi na pré-adolescência, ele era mais novo e eu só o via como um amigo que era primo de uma das minhas melhores amigas, e aconteceu no dia de uma festa surpresa e ele era o único menino no meio de um monte de meninas, e foi quando o notei, e essa cena repetiu-se na adolescência, desta vez ele trazia flores, mas meu olhar já começava a tornar-se vago. O terceiro foi na adolescência, e foi o tipo mais puro dentro de uma fase tão tomada por confusões e instabilidades, aconteceu de um modo diferente, prolongou-se quatro anos até que eu o encontra-se pessoalmente, e a minha única certeza nesses quatro anos de troca de sms, mentions e telefonemas que prolongavam-se pela madrugada, era de que "era ele".

As três situações tem algo em comum: calma e inocência. Uma das minhas saudades é sentir novamente essas sensações. Aquele disparar do coração ao ouvir uma voz, um olhar que dispensa qualquer palavra, a segurança de uma presença, o afeto; o 'eu gosto de' que traz consigo peso algum, apenas a leveza de saber que ele existe, e isso basta, porque aquilo não te inquieta, e o aperto no peito é totalmente desconhecido porque seu coração acelera prevendo os melhores momentos pelos quais passará, aqueles que você um dia lembrará com um sorriso espontâneo e a certeza de que valeu a pena segurar aquelas mãos, que valeu a pena ceder o coração porque por mais insana e fácil que seja a sociedade é preferível ainda olhar nos olhos dele com inocência, a pureza do gostar, e saber que vocês tem um ao outro do modo mais natural.

Eu gosto do " gostar" de uma criança, e como uma novata no mundo adulto, eu vejo esse tipo em adultos que caminham por ai e admiro. Sou da época em que criança em sua inocência achava que aquela pessoa seria única em sua vida, o para sempre era tão presente quanto a certeza de que mais um dia se iniciaria e eu o veria de novo erguer a mão na aula de matemática, porque "nossa, ele era tão inteligente". Amar como uma criança é não precisar sucumbir aos sentimentos rasos e superficiais de um momento, é não precisar de mais ninguém para preencher aquele espaço porque aquele que você escolheu, que te aconteceu, é a sua calma materializada, o sorriso fácil, a estabilidade de dias bons e até ruins; não é um número, não é status e nem luxúria datada de validade. É apenas ele. Amar como uma criança proporciona as lembranças que você irá querer lembrar, porque o sorriso que ele trará adivinha?! Será como o de uma criança. E não tem sorriso mais gostoso de se ver.

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3 Comentários

  1. Xará, você continua peculiar e agradável de ler.
    Sei que devo voltar mais vezes.

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    Respostas
    1. Ô xará, fico muito feliz em saber! :)
      Também preciso passar mais no seu.
      ;*

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  2. Que texto gostoso de se ler! Li duas vezes. Hahaha
    Fiquei pensando nesse amor tão suave, da infância, e vieram memórias tão bonitas, de encantos que não foram esquecidos apesar dos anos.

    Beijo.

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