III. Na estrada

quinta-feira, agosto 06, 2015

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Os olhos dela se deleitavam sobre o asfalto. Ele a observava tamborilar os dedos no volante, cantarolando o folk da rádio que ele nunca ouviu falar. "Claro, vivia enfurnado naquela biblioteca ou naquela fábrica", lembrou ela quando ele se espantou com a beleza daquelas músicas e, por incrível que pareça, por ter confessado que era a primeira vez que ouvia à rádio. 

 Leituras tem mais graça com trilha sonora.  alarmou ela.  Experimenta.  E lançou para ele aquela pisadela que o convenceu a dar um tempo de tudo e cair na vida - como dizia ela -, ele se  referia à cega aventura como "cair na estrada".

Ele a questionou para onde eles iriam, mas aquela moça ao seu lado, que tinha apenas um ano a mais de vida que ele, que pouco descreveu sobre si mesma apenas abriu a boca sem emitir nenhum som sibilou: "S-O-N-H-A-R". E ele riu, recebendo o sorriso dela em troca. Muitos diriam que ele era louco por seguir uma estranha maluca que não sabe nem o próprio destino, mas todas aquelas correspondências que trocaram durante meses quando ele se enfurnava na biblioteca, faziam-no acreditar que ela o conhecia melhor que si mesmo, e talvez ele também a conhecia de fato. Ele contou sua vida em bilhetes e cartas a uma desconhecida que todas as semanas guardava escondido uma resposta, e vagos detalhes sobre sua vida solitária e aventureira, entre um livro de capa amarela da estante dos fundos, onde ninguém mexia. Ela leu suas entrelinhas, e ele sabia muito bem disso. 

 Caius. 

Ele tirou os olhos da estrada e a olhou. Ela, com o olhar perdido a sua frente abriu a boca para falar, mas pensou um instante e fechou-a, olhando-o. Seu rosto corou e Caius a encorajou a falar. 

 Sabe tirar belas fotos? 
 Não tive muitas oportunidades para isso. 
 No banco de trás tem uma câmera. Tire fotos: da paisagem, de mim, de você, de tudo o que vier a sua mente. E mais tarde eu posso te ensinar algumas coisas- Ela suspirou — O segredo é fazer das lentes os seus olhos,observe o bonito, o feio, o estranho,o exuberante, o novo...porém, congele o momento. 

Quando Katarina voltou a olhá-lo para terminar de pronunciar a última frase, ela sorriu. Aquele sorriso iluminou cada parte nublada de sua mente, cada incerteza que ele ainda tinha em libertar-se e ser ele mesmo. Aquele sorriso o envolveu de tal maneira que ele teve vontade de abraçá-la, mas seguindo os conselhos daquela garota crescida, ele congelou seu sorriso e recebeu uma gargalhada em agradecimento. 

Caius segurou a câmera por alguns minutos que pareceram se prolongar pela vida, observando a primeira fotografia de seu momento com Katarina. Algo naquele sorriso o intrigava e encorajava, e ele simplesmente não conseguia entender como ela conseguia fazê-lo sentir daquela maneira. Caius, o covarde, que sempre acreditou que viveria sob o mal julgamento de todos. Ele despertou de seus pensamentos quando sentiu o olhar dela pesando em seu ombro, e fingiu disfarçar seu constrangimento passando rapidamente para outra foto e fingiu analisá-la. 

Com o olhar baixo ele olhou a estrada, e em seguida Katarina, que mais uma vez parecia perdida em sua mente inquieta. Caius esboçou um sorriso e balançou a cabeça censurando a si mesmo por ele, por ela, e pelo caminho que aceitara seguir. Em seguida juntamente com o braço discretamente coreografando um sinal de vitória, ele pronunciou um baixinho "Isso!", e então entregou seu destino nas mãos daquela completa estranha. 

Este é um conto que faz parte de uma coletânea chamada Sonhadores, composta de seis contos que estarei postando aqui no blog. 
                                                                  Leia os contos anteriores  

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1 Comentários

  1. Amei esse conto. Vontade de "cair na estrada" também e se entregar, sem pensar nas contas pra pagar ou no emprego que é preciso manter. Muito bonito mesmo!

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Obrigada pela visita! ♥

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