Marco: A jaula do orgulho

sexta-feira, novembro 21, 2014

Quando foi a última vez em que você sorriu de verdade? 


Os olhos dele arregalaram ao ouvir meu tom preocupado, e creio que notou o esforço que minha voz fez ao buscar sair. Há muito tempo, na verdade, há alguns anos que felizmente consigo contar nos dedos de uma mão apenas, mas que se não fosse aquele dia teria sido em duas, noto os poucos sorrisos falsos que ele transmite aqui e ali. O sorriso forçado que mostra um olhar triste e uma alma amargurada. Quem o conhece talvez perceba apenas um homem que aparentemente está cansado de mais um dia longo e exaustivo de trabalho, porém observar a capa não nos diz muito de um livro, nos dá apenas uma ideia sobre ele, e olha que capas enganam. E como enganam. 

Subindo a Augusta um dia desses foi que me dei conta do que realmente acontecia bem à minha frente e nunca me dei conta por sempre dizer que estava tudo bem, nessa mania de ignorar tudo quanto é coisa ruim. Depois de esbarrar com tantas pessoas, cruzar com tantos olhares, eu percebi que a maioria trazia uma euforia contagiante, mas que depois de observados, mostravam sorrisos amarelos e um tom de voz que denunciava seus demônios e reprimendas. E eu soube, enxerguei-o ali, em cada uma daquelas pessoas.

Imagem do weheartit
Algumas pessoas apenas vivem, respiram porque são obrigadas, e em algum momento da vida não fazem a menor ideia do que fazem no mundo. Qual é o significado da minha existência quando tudo ao meu redor desmorona, e aos poucos minha sanidade mental evapora em meio a poeira? Eu via esta pergunta em seus sorrisos frouxos, e quando seu olhar tentava sorrir. Era triste. Sabe por quê? Ninguém que tenha dentro de si um coração de verdade gosta de ver as pessoas amadas em estado de decomposição, ninguém gosta de ver apenas a matéria. E a essência? Ali não existia mais a essência inspiradora, apenas o rastro daquela tão belíssima que um dia existiu.

As pessoas aos poucos entregam-se ao abismo abraçadas pelo orgulho. Quanto mais os planos vão por água abaixo, quanto mais seus céus amanhecem nublados, mais o colorido deixa de prevalecer, e os esforços deixam de existir pelo simples fato do corpo e alma saciarem de tanta insistência - mental-  inválida. É difícil, e como é. É difícil ver-se em uma vida nova, diante de dificuldades que há cinco  anos eram inimagináveis, complicado engolir o orgulho e colocar-se atrás de novos meios de vencer. Uma pessoa que é acolhida pelo orgulho cega-se para a possibilidade, ou quando as enxerga tem a convicta certeza de que não é suficiente. Não é suficiente para sua alma acostumada com coisas maiores, e qualquer que seja a possibilidade abaixo daquela anterior que desmoronou é humilhante. 

Ele me olhou, e diante daquele olhar frio cedi ao desespero e despejei todos aqueles demônios que ele guardava em si e me encaravam rindo em suas pupilas. Eu via que quanto mais falava, mais seu orgulho inflava e me reprimia com aqueles olhos que fechavam-se de raiva, mas que no fundo incompreendiam qualquer palavra dita ali. Então me levantei e sai. Sai porque nós, que observamos, até somos capazes de mostrar o caminho de um labirinto, mas não de caminhar por ele e chegar a sua saída no lugar de alguém, quando aquele labirinto foi feito unicamente para ele. Só é ajudado quem quer, e as mudanças começam de dentro.

Um mês depois daquela conversa o telefone tocou e estremeci ao ver o nome na tela: Marco.

- Me encontra hoje?
- Não posso.
- Por favor.
- Me dê um motivo.
- Porque hoje não quero que seja o último dia em que eu sorrio de verdade, mas o primeiro.

Confesso que a última frase me tocou. Mas só fui capaz de acreditar inteiramente nela quando me certifiquei pessoalmente.

Sempre ouvi uma frase que diz mais ou menos assim: "Só nos damos conta do que nos tornamos quando as pessoas que mais amamos se afastam e o motivo somos nós.". Costumo ver os dois lados deste pensamento: Algumas pessoas se afastam quando vencemos e não suportam ver a vitória alheia, e talvez o amor depositado ali tenha sido mal gasto, e quando nos entregamos ao tal abismo que amedronta mas nunca tem um fim; as pessoas oferecem ajuda mas nós não queremos ajudar a nós mesmos, afastando-as. No entanto, Marco, meu irmão, engoliu e digeriu seu orgulho quando percebeu que afastava quem procurava se aproximar. A mudança começou nele, e então tudo passou a fluir.

Preciso dizer mais alguma coisa?

(Inaugurando a categoria: Um nome, uma história.)

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1 Comentários

  1. amei esse texto de uma forma bem torta, Bruh. Ele me tocou de um jeito meio forte, sabe lá porque (eu sei, mas né... seguimos).

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