Sobre sentir e seguir

domingo, junho 01, 2014

Fiz uma descoberta há alguns meses e resisti a compartilhar com quem quer que seja. A mais próxima das pessoas não me ouviu gaguejar minhas palavras indecisas. Há alguns anos, o qual desconfio se foi realidade ou sonho, conversei com um senhor e uma senhora. Seus rostos eram marcados pelo tempo, suas expressões eram cansadas, mas carregavam uma luz no olhar, um cintilar no sorriso que me fez espelhar seus modos, apreciar cada momento, ouvi-los em silêncio. Depois de muito tempo eu a vi novamente. Seu olhar era trêmulo, tinha expressão cansada, mas a luz ainda estava lá, sua aura era fascinante. Ele havia partido, e ela se recompunha aos poucos. Ela havia tido conhecimento de algo nela, e durante todo o tempo em que foram companheiros nunca pararam para se perguntar o que cada um era, apenas completavam um ao outro sem necessidade de questionamentos. E, naquele momento, junto dela, eu soube: Retiro o que disse em algum momento da minha vida, eu não gosto de surpresas.

Eles eram a razão e a emoção. No início, cada um tinha um papel, mas aos poucos isso fundiu-se e eles nunca chegaram a ter essa informação, juntos. Lembro que eu estava sentada no estofado da janela, contemplava algo, creio que seja o céu, pois costumo perder-me nele quando me encontro pensativa, perdendo completamente minha lucidez; nada lembro dos detalhes, só do que tinha que ficar guardado, tudo o que eu precisava carregar. A senhora pousou a mão em meu ombro e pediu que eu fechasse os olhos. 

Eu não estava preparada. Ela mostrava sua vida, seus temores, suas certezas, tristezas, alegrias, e mostrou-me as dele, seguidos da minha. Ouço ao fundo minha própria razão rindo de mim, das vezes em que bati o pé e disse que era madura o suficiente para lidar com qualquer que fosse a surpresa. Meu otimismo me cegava, e isso era errado. Ele tinha de permanecer ali, mas era necessário cautela nas minha palavras, em tudo o que eu cantarolava aos quatro ventos. Guarde para ti, pois o coração é bobo e confia demais na ventania que antecede a tempestade. A chuva não limparia minhas incertezas, só as deslizaria para algum canto escuro, e essas, esquecidas, viriam vingar-se uma hora por terem sido postas de lado. Porque na vida não há apenas o lado claro, o escuro está ali, e não se pode ver apenas a luz. Luzes se apagam, energias falham, e é preciso saber lidar com a escuridão... é necessário reservar uma vela. 

Ela era o coração, e ele a razão, e ela soube disso no momento em que ele deu-lhe o último beijo e cantarolou um adeus que disse ser breve. Não prolongaria adeus, o dizia pela entonação bonita, mas o sentido que lhe cabia era de um habitual tchau e até logo. A razão brincava com seus sentimentos, e então ele partiu. Mas foi então que a partir daquele tempo de convivência que ela aprendeu a não entregar-se para a escuridão do seu velho casarão, ele a ensinara assim, sem querer, a ao menos querer ser forte. No início não foi fácil, mas aos poucos entendeu que aquilo era a vida. Eles se completavam, mas uma hora teriam de agir por si próprios, cada um com sua força interior. E nisso eu soube, meu coração afetava minha razão, e sim, eu odiava ser surpreendida com coisas banais à minha não-aceitação. Mas eu teria de ser forte e criar minhas próprias barreiras para não ser afetada, para passar por cima, teria de aprender a recolher partes do coração em pedacinhos, e teria a razão ao meu lado quando fosse preciso, e não a teria em algum momento da jornada. Só me resta saber se sou a razão ou o coração desse meu roteiro.

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5 Comentários

  1. Uau, que texto hem Brunna!
    Bom, eu acho que não só você, mas todo mundo tem um pouco de razão e e obviamente coração.
    Na maioria dos momentos das nossas vidas usamos sempre o coração (aquariana falando agora), mas com o passar dos anos, talvez cansemos de dias escuros e passamos a olhar/ouvir a razão também.
    Eu travo uma batalha diariamente entre razão e emoção/sentimentos. Em certos casos a razão tem ganhado, mas não sei se isso é uma vitória.
    Adorei o texto!

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    Respostas
    1. A razão é mais sensata. Acho que vitória é usar a emoção e ter a coragem de ficar a mercê das consequências dela. rs

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  2. Sempre que eu vejo um texto em blogs, me da uma puta preguiça de ler, mas eu sempre dou uma chance, ao mens começo a ler, se vou continuar aí não sei. No seu eu comecei e pensei "esse com certeza eu vou ler até o fim" parabéns, vou dar uma olhadinha nos outros textos aqui...

    beijos:
    meu blog coisas de ana

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  3. Acho que não devemos escolher entre razão e emoção. Acho que devemos ser o equilíbrio desses dois.

    Lindo texto Bruh!!!
    Beijo meu,
    MF.

    ResponderExcluir
  4. Acho que não devemos escolher entre razão e emoção. Acho que devemos ser o equilíbrio desses dois.

    Lindo texto Bruh!!!
    Beijo meu,
    MF.

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