II. O leitor

segunda-feira, fevereiro 24, 2014

     "Foi um dia conturbado, daqueles agitados." ele dizia todas as vezes em que chegava em casa e deparava-se com visitas que lhe questionavam o olha cabisbaixo. 

     O pai lançava-lhe olhares de censura e logo exigia atitude: "Precisa de algo que ocupe a cabeça. Tem a saúde da família toda. Tem que trabalhar mais."

     Ele ouvia calado o despejar das amarguras do pai, que fora um homem desprivilegiado a vida toda. Aos sete teve de sair e trabalhar para ajudar o pai, um velho carteiro que aproveitava os domingos, único dia de folga, para não ficar em casa; gastava tudo o que tinha em jogo, na expectativa de ficar rico. A mãe era costureira, fazia belos vestidos para as moças ricas do vilarejo; todos a admiravam, e quando ela teve a oportunidade de costurar para a nobreza, não pensou duas vezes em sair da cidade. Todo mês mandava metade do que ganhava para a educação do filho e para ajudar nas despesas da casa. Entretanto  ele nunca viu um terço desse dinheiro. Cresceu com coração esfolado pela situação em que vivia, a mágoa o perseguia. Viajou de carona com uma viúva rica, cliente de sua mãe, para a cidade após receber uma carta entregue pelo próprio pai que pouco fez fez caso, de que a mãe adoecera. Teve um mês ao lado dela. Não saiu da cidade, construiu sua vida lá, e não foi muita coisa. O filho lembrava seu pai, e isso o entristecia, apertava o coração. Ele tinha que ser diferente, tinha que crescer. 
   
     Este era o seu pai. E ele quera ser diferente.


     Dizia trabalhar o dia todo, mas passava as horas anteriores e posteriores ao expediente dentro de uma biblioteca perto do antigo colégio. Gostava do ambiente, além de lhe fazer sentir em casa, a janela da mesa que ocupava todos os dias tinha visão para sua antiga sala. Era um alívio ter aquele refúgio diário. Lembrava dos dias em que só sentava no banco da escola para assistir aulas que contavam histórias; gostava de números  mas amava as palavras. Usava o caderno de desenho para escrever seus devaneios. Todos os dias tinha uma nova história em mente  Certa vez, amedrontado por seu caderno ter apenas palavras e não desenhos, chegou mais cedo e passou duas horas no achados e perdidos em busca de um caderno em branco. Por sorte, ou favorecimento do destino, encontrou. Naquele dia voltou feliz para casa, pois não teria de ouvir o sermão de que aquela cidade formava artistas de pincéis, e não de palavras; estas não colocavam comida dentro de casa, dizia o pai ao ouvir falar de alguém que foi para a a capital tentar a vida como escritor.

     Foi numa tarde, já saturado das máquinas da fábrica que lhe machucavam as mãos, foi para a biblioteca  e lá decidiu ficar durante todo o dia, e viu que alguém ocupava a sua mesa. Aproximou-se cuidadoso e, cismado de aparentar atrevimento, falou baixinho: - "Desculpe. Mas este lugar é meu.". Ouviu um riso saindo do grande chapéu que cobria a face de alguém que ele não conseguia ver. "Por acaso está escrito o seu nome aqui, meu jovem?". Ele, pela primeira vez desde há alguns dias, sentiu seu corpo esquentar. Sentiu uma pontada de raiva crescer em seu corpo, mas, controlando-se, apontou uma palavra no cato da mesa. "Marco? Ah, então é você quem tem me correspondido?"

     Sentiu seu coração saltar no peito. Estava diante dele quem o ajudava há meses. Ao contrário do que imaginava, era uma mulher. Na verdade, corrigiu-se quando ela ergueu-se da cadeira e a olhou nos olhos. Era uma moça. Não devia ter mais de vinte anos. Era mais baixa que ele, e tinha um olhar malicioso; o enfrentou desde o primeiro momento. Ela riu baixo e balançou a cabeça, dizendo que o havia visto algumas vezes, mas não imaginava que tratava-se do rapaz com quem trocava cartas e confidências. Ergueu-lhe a mão e ficou-o encarando, enquanto ele olhava-a sem reação. Quando sentiu sua pele tocar na dela, um sorriso veio automaticamente.

     "Até mais, Marco." Ela lançou-lhe aquele olhar desafiador e saiu. Ele virou-se pronunciado rapidamente para que ela pudesse o ouvir, mas ela já havia saído, "É Caius-, e ficou observando a porta, sentindo uma pontada de decepção por não ter mais tempo com a moça que o conhecia mais que sua família.  Ela nem ao menos havia se apresentado.


Este é um conto que faz parte de uma coletânea chamada Sonhadores, composta de seis contos que estarei postando aqui no blog. 
Leia a primeira parte da coletânea de contos "Sonhadores":

I. A leitora 

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