Ela é Grinch

domingo, dezembro 22, 2013

"Não. Não a chame, ela é meio Grinch.", ouviu por trás da porta o primo comentar. 

Talvez fosse mesmo, só lhe faltava um nariz achatado e arrebitado, e uma pele verde que lhe traria uma vida inteira presa no casulo, só mais um, para não perder o costume. Ouvir o tom rouco da voz do primo metaforicamente compará-la não a deixou chateada, apenas inconformada. As pessoas têm uma leve mania de julgar antes de saber o que realmente se passa, de conhecer a vítima de comparações que chegam a ser alarmantes. Ela não odiava o Natal como o garoto alto da sala deu a entender, apenas não tinha clima. Estava numa fase em que os significados do feriado e da festa não eram tão claros, era confuso. Um dia, ela sabia ,que entenderia, mas sua mente curiosa, estufada de perguntas e conhecimentos novos não a deixava entender tudo aquilo que um dia fez todo o sentido. Presentes. Há seis anos atrás a virada de 24 de Dezembro para o dia 25 significava ganhar presentes, daqueles gigantescos que ela esperava o ano todo para ganhar; não que os pais negassem durante o ano, mas ela sentia ser mais especial esperar pelo Natal, pulando até o dia das crianças. Deixou uma carta na árvore de natal uma vez, mas o bom velhinho a ignorou, e depois nunca mais. Passou a pedir mentalmente, não bens materiais, mas bons atributos e valores, o que era um tanto precoce. 

Ainda há clima. Ela curte o finalzinho de Novembro e o mês de Dezembro, quando tudo fica iluminado no centro, fotos surgem em toda a rede, e pessoas parecem mais generosas e alegres. É sério, até ela fica mais iluminada. A desconfiança apenas é se isso é efeito do Natal ou da virada de ano. Quem sabe. A verdade é que tudo se perdeu quando ela começou a conhecer o mundo, e melhor (pior?) as pessoas. Sempre observou os acontecimentos quando criança, mas pouco entendeu do que acontecia, então ela cresceu e a sua visão desembaçou. Ao contrário do que muitos dizem, em que deve-se ignorar o passado, o mal que as pessoas nos fazem, ela não o fez. Uma coisa é certa, é fácil para quem feriu esquecer, mas quem foi ferido, ah! querido! difícil. Cicatriz é algo que sem sempre cai bem. Sabe, sorrir é bonito, mas não trata-se de algo fácil em determinadas situações. Por isso ela já cogitou cear sozinha e refletir sobre tudo, talvez o sentimento voltasse e... sentir tornaria-se algo mais fácil.


Já notou a confusão nas ideias? Ela é isso. Não um poço vazio, sem emoções, de longe ser isso, mas uma enxurrada de pensamentos e sentimentos se atropelando. Talvez seja isso o que a deixe às vezes tão indiferente. "Poxa, entenda, tenho muito que ver, muito o que sentir.", pensou, observando a sala. O primo não seria nem de longe capaz de entendê-la, pouco a conhecia, se passaria bem por um estranho em determinadas ocasiões. Falta de oportunidade para aproximação de sua parte não houve, mas deve ser normal (ou não) e distância de afinidade. Errado era chamá-la de criatura verde desprovida de emoções sem conhecê-la de verdade, entender seus motivos. Naquele momento ela estava feliz. Tinha o que precisava: pessoas que a entendiam, que a conheciam e tinha espaço em sua vida e lhe proporcionavam nas delas. Isso bastava. Eles estariam ali quando ela voltasse a sentir. O que, na verdade, ela tinha a leve sensação de que estava próximo.  

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1 Comentários

  1. Já tive uma fase meio igual a ela, acho que no fundo em todo final de ano nós ficamos meio assim, não é o natal, nem o ano novo, é o fechamento de um ciclo, essa lance de repensar na vida sem querer, quase que por osmose.

    http://denovomaisumavez.blogspot.com.br/

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