I. A leitora

sábado, julho 06, 2013

"Eu nunca me senti muito capaz de entendê-los. Aqueles dois eram tudo e nada. Esbarrei com eles pela primeira vez há dez anos, e depois disso, eles tornaram-se propositais e cada vez mais frequentes. Era bom tê-los por perto, a solidão que assolada a pensão da minha mãe sumia, e tudo ficava tão mais claro. 

Caius era engraçado, sempre surgia na sala e jogava água na lareira, deixando os clientes enfurecidos, mas fazendo toda minha família rir sem parar. Melissa foi séria no começo, mas logo mostrou-se tão brincalhona quanto Caius. Eles davam cor àquela pensão que já cheguei a pensar ser algum tipo de velharia assombrada. E foi isso o que os chamou a atenção. Quando após algum tempo hospedados, e já próxima o bastante de Melissa para confidenciar algumas coisas, contei que aquela casa me trazia calafrios. Ela e Caius ficaram vidrados; naquela noite trocaram sorrisos e correram para seus quartos, voltando em seguida cada um com um punhado de folhas debaixo do braço lápis e caneta. Me olharam brevemente e logo cada um pegou um lápis, que Melissa tratou de jogar no canto do sofá e pegar uma caneta. Melissa odiava lápis.


     Entendi, em partes, o que os tornava tão atraentes, a partir daquele momento. A partir daquela noite, eles tornaram-se mais curiosos que antes. Perguntavam-me sobre a história da vila, da casa, das pessoas... Eles queriam histórias. Os levei ao encontro de vários parentes e vizinhos para que pudessem satisfazer seus lados curiosos. Seus olhos brilhavam com cada nova história que cercava aquela velha vila. Várias vezes os acompanhei, quando não apenas li um dos seus escritos ou os ouvi maravilhada, e me assustei como o lugar onde eu morava guardava tantas boas lembranças e lendas. 

    Lembro como minha mãe ficava de cabelo em pé quando os avistava da janela enterrando um ao outro na neve. "Crianças tolas", resmungava  E eu concordava com ela, apesar de mais de vinte, ambos comportavam-se feito crianças em vários momentos; na verdade, perfeitas crianças. Com o tempo, percebi que as brincadeiras bobas eram um modo de ascender a criatividade dos dois, além de relatarem o ocorrido mais tarde. Era bonito como se olhavam quando estavam diante da lareira. Porém, mais bonito foi o dia em que os levei até um senhor, um dos moradores mais velhos da vila, e eles ouviram a história dele e de sua senhora que já não estava mais entre nós. Estávamos numa casa que dava a impressão de estar no topo da serra, e após ouvir as histórias e tomarem xícaras e mais xícaras de chá, foram até uma pedra que dá visão a um belo vale. Fiquei observando-os da janela. 

    Caius e Melissa ficaram um bom tempo contemplando a paisagem encantadora do vale. Acho que conversavam, pois em alguns momentos viravam-se um para o outro e sorriam, além de rirem em alguns momentos. Algo que me deixa curiosa até hoje é o que fizeram logo em seguida. Caius virou-se e segurou as mãos de Melissa abaixo de seus olhos e encarou-a por um longo tempo. Uma lágrima escorregou pelo rosto dela, e em seguida viraram-se para novamente acompanhar o espetáculo natural. Quando caiu a noite, anunciaram que partiriam no dia seguinte. Tudo para eles era de imediato. Alegaram esperar amanhecer para poderemos passar mais tempos juntos. 

    Hoje tenho a única foto que ficou daqueles dias claros. Quando questionei a razão de partirem apenas disseram entusiasmados que encontraram o que queriam e era hora de ir; não questionei mais, pois não falariam mais do que aquilo. Tenho alguns de seus rabiscos guardados em uma das gavetas. Parecem-me cartas de amor. Não sei. A tinta está desaparecendo, e muito as das folhas estão rasgadas. Apenas sei que sinto falta daqueles dois colocando enfase na vida, de observá-los apaixonando-se mais um pelo outro a cada dia. De como viam com perspectiva tudo e todos. Dos dias em que me fizeram sair do casulo e ver o mundo. E se escrevo hoje, é por culpa deles."

Este é um conto que faz parte de uma coletânea chamada Sonhadores, composta de seis contos que estarei postando aqui no blog. 

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3 Comentários

  1. Muito bom o conto Bru, envolvente. E não sei o que comentar.
    Adorei!

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  2. Brunnaaaaaaaa, eu simplesmente fiquei encantada com tua escrita. Além do próprio conto, seu conteúdo, a tua forma de escrevê-lo é apaixonante.
    Gostei demais. Parabééns!

    Beijão.

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