Café: Nossa história de amor

domingo, abril 14, 2013


Baixo o olhar para o asfalto... Estes ladrilhos de pedra pelos quais cultivo um fascínio que dispenso explicação. Ouço o riso suave que vem dos lábios do sorriso que sabe quando sufocar sua vítima. Balanço a cabeça. Desaprovo. Só para variar um pouco — finja que acredita. Suas mãos tomam as minhas e encontro seu olhar. Deixo as sapatilhas escorregarem dos meus pés e encosto nos ladrilhos de pedra, me distraindo por um tempo, apenas pelo simples fato do  nervosismo me encontrar a todo ou qualquer momento. Te olho, e ali eu vejo, me observo, nos contemplo por eternos segundos. Sinto que decifra meu olhar, e em seguida você assenti, como se lesse meus pensamentos. 

"Uma garota encontra-se sentada perto de uma lareira, num canto pouco iluminado da livraria. Ela acabara de comprar um dos livros para o qual há algum tempo vem juntando dinheiro para ter — uma fortuna! — pensa, sem lhe faltar razão. Cada página é um delírio para sua imaginação acolhedora. Ao lado, uma caderneta e um lápis em perfeito estado. Conforme lê, faz alguns rabiscos nas páginas amareladas do caderno recém adquirido. O café é seu aliado, toma-o compulsivamente espantando o sono que ameaça chegar a todo instante. Sua mente voa, sua cabeça está fartando-se de ideias, e passar-lhes para o papel de uma só vez parece-lhe uma aventura quase impossível. Abre o laptop e continua por lá. Ele bipa, então ela abre a rede social que ainda não a viciara e vê uma imagem. Seus olhos brilham, e não se contendo, elogia o fotógrafo  — Incrível. Espanta-se quando recebe um agradecimento. Ela sorri, e volta para suas anotações. Toca sua xícara, mas o café já se fora. Mais um bipe: — Como vai? — Ela balança a cabeça e ri consigo mesma. Por que interromperia a sua criação para conversar com um desconhecido que consegue superá-la em fotografia?  — Vou bem. — Seu olhar baixa até o rodapé da tela e vê o autor da fotografia, das palavras despreocupadas que passa a enviar-lhe. Encostado numa parede amadeirada,  tem o olhar fixo em sua direção. Sorriso manso, olhos quase que querendo lançar-lhe uma piscadela. Ela balança a cabeça em desaprovação com os pensamentos que acabam de lhe ocorrer. — Veste o quê? — ele pergunta. Sua indignação não fora o suficiente para ignorá-lo, tem dúvidas de quem a interroga, mas diverte-se com o flerte com o estranho. — Azul. 

Vários minutos depois, continua a jogar conversa fora com o estranho, esquecendo-se completamente do livro, a caderneta, o lápis, e de repor o seu café. Vez ou outra, solta risos abafados, fazendo algumas pessoas a olharem com curiosidade, mas ela não se importa. Gosta de falar com aquele estranho, que já sabe o nome, idade, e vocação, mas prefere vê-lo como um desconhecido. Aos poucos descobre uma pessoa tão apaixonada pelas letras quanto ela, tão encantada quando ela na arte da fotografia. Quando lança a mão direita em busca de sua xícara, levando-a aos lábios, descobre - novamente - que este já se esgotara.  Ergue a mão, mas o garçom vem com a bandeja ao invés do bloquinho para pegar seu pedido, e troca sua xícara vazia por uma cheia. Ao lado, um pedaço de papel — Bela jaqueta. — lê. Seu coração palpita, e seu olhar vasculha toda a livraria e parte da cafeteria. Bem à sua frente, nota alguém observando-a por trás do laptop.  Ele sorri. — É por minha conta —  fala de longe, e apenas seus lábios movem-se, sem produzir som algum."

Pisco, recompondo-me da lembrança que cerca qualquer momento que passo ali, ao lado dele. Fico olhando a rua, enquanto seu abraço me envolve, e ambos continuamos perdidos em nossos pensamentos. Suas mãos estão quentes, enquanto as minhas permanecem tão frias como um cubo de gelo. Costumo dizer que significa coração quente. Não faço ideia se é verdade, ou é apenas uma desculpa para quem não possui calor nas mãos na maior parte do tempo; sendo ou não, deixo a dúvida de lado e me deixo acreditar. Ele levanta e me puxa pelas mãos. Caminhamos por poucos minutos, então paramos. A livraria, a cafeteria, onde tudo começou. Viro para olhá-lo. Percebo que ele me observa, sei que está tendo o mesmo pensamento que eu. Ele pega minhas mãos, levando-as até seu rosto, beijando-as de leve. — Um café? —   Ele pisca. — É por minha conta!

* Para cafeinar o dia internacional do café, companheiro de boas leituras e inspirações. 

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10 Comentários

  1. Um conto cheio de detalhes e que me fez viajar, apesar de eu detestar café (tenho medo de ficar preta) Haha
    Lembra do que eu te contei ontem?
    Então, esse conto lembro ele, porque começando a conversar por um bate-papo e tal.
    Acho que já sou suspeita pra te elogiar mas ficou maravilhoso Bru!
    Parabéns!

    Beijos

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    Respostas
    1. Obrigada! ♥
      Mas café não dá este efeito não. haha

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  2. Adorei o texto e escreves super bem ^^

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  3. Os momentos se cruzam e nos oferecem sensações tão confortantes. Encontros e olhares que afunilam, absorvem êxtase. Coisas do cotidiano... do amor.

    Lindo texto.

    Beijo!!

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  4. e vooc mesma que escreve tudo isso ?

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Obrigada pela visita! ♥

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