Só mais uma vez - talvez

sábado, março 02, 2013

Eu sei que falo muito de saudade, e isto pode cansar algumas vezes. Eu me canso. Aperto no peito, mente agitada, tudo isso dá cansaço, mas escrever é refugio, e não abro mão disso. Quem lê, talvez pergunta-se o que fez a remetente que tanto sente falta. Tenho dúvidas se é porque fiz, ou deixei de fazer. Não importa, por hora, pois só preciso escrever um pouco. Aliviar uma fração da alma, sabe.

     Vasculhei a gaveta de cadernos empoeirados, aquela em que jogo todos os que compro só pelo prazer de ter capas e estilos diferentes dentro do quarto. Foi ontem que encontrei o que guarda meus rabiscos de alguns anos. Ri com cada palavra, cada momento fictício, ou não, descrito. Foi ai que cheguei na página grafada à lápis. Algo estranho, pois não escrevo com lápis. Eu devia estar muito desesperada no dia em que escrevi, com certeza não encontrei caneta, ou melhor, nem procurei, o lápis servia, e o som que causa agonia quando o grafite encontra a folha nem incomodou. Eu li. Uma melodia melancólica, das que não ouço faz um bom tempo, tocava enquanto eu lia minhas palavras confusas. 

     Eu descrevi um momento. Tenho vaga lembrança. Sei que aconteceu, mas meu esforço para esquecer deixou-a sob uma névoa em minha saudade. A escassa memória lembra que foi o dia em que li olhares. Ou acho que li. O momento em que parei e observei, e assim fiquei, lendo-o de longe. Devo ter corrido e contado a confidente, e pode até ser que ela tenha dito que você fez o mesmo. Creio que sim. E lendo tudo aquilo meus olhos marejaram lágrimas. Apenas uma escorreu, algo que acontece quando a situação é com o mesmo figurante, pois é estranho soltar-me tanto a ponto de deixá-las escorrerem livremente. 

     Pela manhã, ou pode ter sido pela madrugada, eu estive em uma festa qualquer, rodeada por risos. Você chegou e cumprimentou-me. Como na velha mania, perguntou se deveria ir a tal lugar, a tal hora. Concordei, mas só desejei que o tempo congelasse. Tinha um sorriso ali que eu não via há tanto tempo; que sorriso bobo, que dono mais bobo ainda. Foi bom contemplar. E na dívida que eu tinha comigo, cumpri a promessa que eu acredito já tê-la esquecido. Talvez eu tenha falado, feito, gritado, chorado, esculpido, bebericado, escrito algo.

No entanto, meus olhos se abriram e o teto surgiu. Olhei vagamente para o caderno sobre a mesa e apertei os olhos, desejando nunca tê-lo achado, ou pelo menos agora, quando a lembrança já estava tranquila. Mas saiba que, agora, que a saudade possui sua devida calma, a promessa eu cumpri... Em sonho.

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4 Comentários

  1. Escrever nos dá uma rota de fuga, um recanto para guardar o que se afunila, o que de bonita evidencia nos olhos e pincela a alma com cores vivas. Percebemos e nos marcamos nas folhas, como alternativa para desaguar o que é bonito, para amparar o que de bom vivemos, o que de bom tateamos com o olhar. A alma é reduto de maravilhas. As folhas são confidentes e sabem muito de nós.

    E os momentos ficam eternizados. Quando relemos, sentimos, nos transportamos até o vivenciado. Tanta sensações se misturam. Coração aperta. Olhos marejam... E os sonhos flutuam belo pelo íntimo. A gente sempre cumpre de alguma maneira...

    Lindo texto Brunna!!
    Tão lindo teu modo de escrever...

    Beijo e lindo março!!

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  2. Se for real, ou não, gostaria de te dizer que tá ai descrito tudo o que tenho tentado escrever esse dias, mas que não tem saído de mim, como se houvesse um nó de palavra me proibindo de dizer que eu to com saudades dele pra caramba, que a lembrança tava envelhecida, mas eu também a achei no fundo da gaveta e isso apertou forte tudo aqui por dentro.
    Não sei muito bem o que dizer, só que você já disse o que tenho tentado. Acabei esse texto com um lágrima fujona.

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  3. Escrever é nosso maior refúgio e isso com certeza ninguém pode mudar, pois escrevemos o que é preciso para nós aliviar, a saudade pode estar presente inúmeras vezes por temas, textos, mas a cada escrita descrevemos a de uma forma diferente! E eu to voltando ao mundo dos blogs ao qual é sim o maior refúgio, após um tempinho ausente!

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  4. Os papéis antigos serão eternos responsáveis por esse despertar de lembranças e os novos papéis em branco podem servir, assim como você fez agora, para liberá-las por aí, quem sabe assim elas possam não voltar mais, ou não, mas como quer que seja, que essas novas palavras te façam bem!
    Abraço!

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