Próxima estação

quarta-feira, fevereiro 20, 2013

A estação deve estar cheia, ao contrário daquele dia. O trem chega de cinco em cinco minutos, ou seria de sete em sete? Não me lembro. Na verdade, nem prestei atenção. E agora fico me perguntando sobre isso, meu perfeccionismo me obriga a insistir nessa questão; de fato, só para distrair, porque a melodia soou calma, e os dias na estação chegaram sorrateiros, mansos, mas querendo me derrubar, só mais uma vez. Assim, para não perder o costume. Pois aqui o coração é fraco, se envolve fácil com proximidades de longa data. É isso.

Olho para a visão que a janela me dá. Só mais algumas...- pensava. Estava eu no vagão que entrara naquele dia, em todos os repetidos momentos, e pararia no mesmo lugar controverso. O trem parou e entraram cinco ou sete pessoas, me olharam rapidamente, aquele típico olhar curioso que elas sempre lançam ao entram no vagão. Tirei os fones dos ouvidos e me permiti ouvir o que duas senhoras diziam ao meu lado. E ela diz estar apaixonada, mas parece que para o tal garoto acabou - dizia uma senhora baixinha, de cabelos castanhos, indignada. Fiz pouco caso e voltei aos fones. Meu mundo particular, aquele que circulava na minha mente, era um tanto mais confortável. Um tanto, apenas. 


O trem parou, depois de outras paradas que nem vi passar. Dei-me conta de que ali era o meu lugar ao reconhecer a parede de tijolos que marcou aqueles certos dias. Eu não quis pisar para fora do trem, se alguém nota-se minha resistência e empurra-se, teria minha eterna gratidão; o que não era o caso. Ergui a cabeça e fui. Tudo voltou tão depressa que senti-me tonta. 

Havia um sorriso encostado naquele velho banco, ao lado da pilastra alaranjada. Meu dedo deslisou brevemente pelos cantos daquele rosto. Meus olhos fecharam-se e senti o perfume que não tive a ideia de perguntar o nome envolver-me. Era possível descrever aquele aroma adocicado, tão acessível que fiquei com os olhos fechados até sentir algo me despertar. Foi o tom grave daquela voz que me fez despertar, e então encarar aquele olhar de longa data - e eu só sorri. O que se faz quando sente-se que não há modos de demonstrar o que se sente? Em resposta, apenas continuei com o sorriso, arrancando vários - com intervalos breves - de quem me observava e desarrumava meu cabelo que demorara tanto para entrar num acordo comigo naquele dia. Naqueles dias. 

Uma turma passou. Depois outra. Vi um bando de garotos do outro lado da estação, e então senti algo gelado tocar meu rosto e virá-lo para outra direção. Era impossível conter o riso. Gostei daquilo, não nego, e ver um certo desapontamento naquele olhar até me deixou satisfeita. Uma mãe com uma garotinha passou a nossa frente e observamos até que elas entrassem no trem; a menina pulava, na mãe lhe faltava paciência. Ficamos ali, observando no mesmo ritmo, mesmo compasso. E então, o trem partiu, e o instante se foi. 

Eu estava parada em frente a pilastra, e algumas pessoas me olhavam. Uma garotinha estava sentada em um banco perto de mim, e me observava estática. Olhei-a e sorri. Era a mesma daqueles dias. Ela retribuiu o sorriso e acenou para mim, correndo até uma senhora que voltava da loja de doces ao lado. Talvez ela tenha me reconhecido, ou então apenas sido educada. Se reconheceu, estranhou, pois sua sobrancelha juntou-se brevemente quando procurou algo próximo a mim e não encontrou. - Sim, pequena, momentos passam, mas a memória eterniza. Sim, mesmo que você não queira. 

Fui até a loja que a senhora havia acabado de sair e comprei o que me obrigara a descer ali. Esperei o trem e entrei, rapidamente, quando ele chegou. Olhei para fora, e vi seu sorriso de despedida, sua mão que elevou-se no ar e acenou, aquele olhar que transmitia boas sensações, e algo que aproximava ao ouvido.  - Próxima estação, por favor - eu disse, sem perceber, com o celular próximo ao meu rosto. Foi então que lembrei que não havia ninguém do outro lado da linha, ninguém do lado de fora, e que eu estava sozinha.

You Might Also Like

7 Comentários

  1. Isso é complicado, beijos :)

    ResponderExcluir
  2. Brunna, teu texto me fez ir além do plano textual. Me lembrei de fatos, me senti na história. Senti o doce do amargo. Bem assim.

    Beijos.

    ResponderExcluir
  3. Lembranças podem ser do mal. Mas é como a lição daquele filme (brilho eterno de uma mente sem lembranças): é melhor tê-las do que nem lembrar do que um dia já foi sentido e vivido.

    ResponderExcluir
  4. que lindo! é, os momentos passam.. mais o que é bonito sempre fica..

    ResponderExcluir
  5. Triste. Não sei nem o que dizer, pois esse contro retrata de uma maneira um pouco menos real a situação que estou passando: Isso de olhar para os lados e enxergar alguém que já não está aqui. É doloroso.

    ResponderExcluir
  6. Tantos sentimentos se passam. Li sob o fraquejo do que palpitava no coração da moça e me vi no trem. Curioso como viajamos e nos deixamos belos pelo ritmo cadenciado do trem que parte e retorna. Do transporte que por vezes nos alimenta e nos leva à paisagens vistas, para comprar o mesmo gosto de outrora. E voltamos, licenciamos. Mesmo quando não há mais ninguém do outro lado da linha...

    Belíssimo texto Bruna!

    Obrigado pelo doce e belo comentário no meu blog. Aguardo ansiosamente uma nova visita sua.

    Beijo!

    ResponderExcluir

Obrigada pela visita! ♥

Popular Posts

Like us on Facebook

Flickr Images

Subscribe