Epílogo

sábado, janeiro 05, 2013

     Fechou o livro, desligou a música e jogou o cobertor para o outro canto do quarto. Chega de se esconder, viver numa redoma, como se o mundo fosse machucá-la a todo momento. Sabia que o mundo, ou melhor, as pessoas, sempre machucam, criam feridas que muitas vezes demoram - ou nunca - a cicatrizar, mas estava na hora de colocar-se à frente do mundo; a hora de bater o pé e enfrentar a si mesma chegara, e ela não estava nem um pouco amedrontada - dizia para o seu reflexo no espelho -, mas por dentro, uma pequena faísca forçava para tornar-se chama, por hora, apenas alternava sem muito sucesso.

     Tomou o seu café da manhã reforçado, bagunçou de leve o cabelo, que insistia em amanhecer sempre todo cheio de muita educação - doa-se falta de rebeldia, pensava incontrolavelmente e revirava os olhos ao olhar-se no espelho -, e então saiu pela porta dos fundos. Ao contrário do dia anterior, como havia feito, teria terminado o seu café e voltado para o quarto, biblioteca, quintal, que fosse; um lugar calmo e acharia algo mais calmo ainda para fazer. Desta vez, pegou a bicicleta e saiu, passando pelo portão, e ouvindo o irmão chamar-lhe a atenção por ter pego seu único meio de transporte. Teria de andar, só hoje, ela pensou, acenando de leve para o irmão que a observava enfurecido com as mãos cerradas na cintura.

     As pedaladas não duraram nem meia hora. Já estava no centro de sua cidade pacata. Colocou as correntes na bicicleta - de fato, ali roubo de bicicleta era rotineiro, era um dos meios mais utilizados, ao contrário de carros -, abriu um dos botões da camisa branca, que estava muito apertada, indo até o pescoço, bagunçou novamente os cabelos e seguiu reto na calçada. Suava, o que a irritava, pois o seu interior dizia que todos prestavam atenção todas as vezes em que erguia as mãos para secar o suor em sua resta e tentava se acalmar. Tinha a impressão de que todos ali - não conhecia ninguém, apesar de ser uma cidade extremamente pequena - sabiam o que ela sentia; como se todos lessem pensamentos.

     Chegou a uma porta que ficava entre dois estabelecimentos. Uma ótica e uma pequena livraria. Subiu as escadas daquele pequeno estabelecimento de tijolos vermelhos, que ficava entre os dois lugares que frequentava; a livraria a cada dois meses, pois quando ia, saia com parte dela nas mãos, e a ótica, onde geralmente ia buscar o companheiro que lhe permitia enxergar melhor quando as coias ficavam críticas. Ao chegar ao topo da escada, abriu um sorriso tenso, e a moça que a avistou sorriu em resposta. Ela sabia o que aquele sorriso significava.

     Lay, que até poucos meses sentia-se a pior pessoa do mundo, a que mais cultivava medos, agora tinha certeza do que queria. Ainda havia um enorme conflito dentro de si, mas a força que juntou durante todo o tempo em que ficou em sua redoma imaginária era maior do que qualquer receio. Talvez aqueles livros que leu nesse meio tempo a tivessem ajudado, aquela biografia do pianista que juntou toda sua coragem e foi atrás de lutar por seu sonho, ou a melodia que ouvia pela manhã, que vagamente achou que fosse do mesmo. Havia algo diferente dentro dela, uma alegria - talvez -, uma certeza, e parecia a ponto de explodir.

    Atrás da moça, que agora tinha as 314 páginas de Lay nas mãos, tinha um espelho, no qual Lay olhava esperançosa. Não. Ela estava orgulhosa de si mesma. Conseguira tomar a decisão da sua vida, algo que há muito lhe tentavam fazer entender. Chegara a hora dela compartilhar o que sentia com aqueles desconhecidos que tanto fez para não interagir durante anos. Poucos conheciam sua história; tanto aquela que agora a moça segurava, quanto a da sua vida. Ela enfim tomara coragem para deixar-se crescer, porém, sem deixar para trás o que mais gostava em si, sua inocência e capacidade de observar os detalhes que para  muitos passavam despercebidos. Sentia-se tão bem que não cabia nela mesma. O que de melhor ainda poderia acontecer? Não sabia.

     Ao olhar para trás, seus pais e seu irmão a olhavam com brilho nos olhos. Chegara a hora e eles estavam com ela, ao seu lado, como sempre quis. E logo em seguida, ao lado deles, surgiu quem ajudava-lhe toda vez que entrava na ótica ao lado, e quem também sempre a apoiou desde sempre. Ali estavam sua família, o garoto da ótica - como gostava de chamar o seu maior amigo -, o seu livro, e o seu futuro incerto. 

You Might Also Like

2 Comentários

  1. Adorei seu blog, já estou seguindo e visitarei sempre :)

    ResponderExcluir
  2. Que bom que gostou, Mell! Já sigo o seu e gosto muito. :)

    ResponderExcluir

Obrigada pela visita! ♥

Popular Posts

Like us on Facebook

Flickr Images

Subscribe