Chamas

terça-feira, maio 22, 2012

Imagem
Ali carregava um livro na mão esquerda e uma vela na direita. No noticiário, há três horas atrás, fora anunciada a queda de energia que percorreria a cidade, que duraria exatamente uma hora; meia noite a escuridão ia, e a luz voltaria. Mas já era uma da madrugada e nada acontecia. Lá fora só se ouvia os gatos miando, uma farra sem escrúpulos, pensava Ali. Não era para ser surpresa, no entanto, de tão desligada que era, Ali perdera a noção do tempo e se envolvera naquela leitura fantástica que a fazia – em sua mente – flutuar. Então a escuridão chegara. Com um pulo, deixou a poltrona que ficava em frente a enorme janela de seu quarto, e foi até a copa pegar uma vela e um isqueiro. Pelo menos havia se precavido, pensou, aliviada, ao saber o lugar exato onde os havia deixado quando recebeu a ligação da mãe naquela tarde ordenando-a que ficasse em casa naquela noite. E desde quando Ali saía à noite? Podia contar nos dedos as vezes em que saiu, e no máximo chegara antes mesmo da meia-noite. Mas entendia sua mãe, afinal, “mães”.

Por alguns minutos Ali ficou parada, observando a escuridão pela janela. Posicionou a vela em frente ao vidro e contornou seu reflexo com o indicador. Como enganava com aquela face agitada, omitia suas verdadeiras atividades, dizia ser entrosada, mas disso passava longe. O sorriso surgiu ao lembrar das vezes em que disse estar em festas badaladas, mas estava mesmo é com o nariz quase colidindo com os livros que não paravam de surgir. Enquanto alguns enganavam com um rosto angelical, ela enganava com um rosto inquieto. Quantas vezes isso será bom?, Perguntou-se.  E com um riso zombeteiro, fechou os olhos por alguns segundos, inalando o odor da vela. Após um breve suspiro, pegou o livro e retomou a leitura, ali mesmo, em pé, encostada no vidro.

Os minutos foram devagar, e só o que Ali ouvia era sua respiração e uma coruja que parecia mais inquieta que os gatos que até há pouco curtiam revirar as latas do vizinho que insistia em largar sua bagunça encostada no portão baixo. Deliciada com o que lia e, ao mesmo tempo escandalizada por alguns trechos medonhos, olhou para a vela, incomodada. “O que havia de errado com a luz?”. Por mais que necessitasse prosseguir, queria largar o livro a cada novo susto. “Como alguém pode aparentar ser bom e ser tão ruim?”, Ali lidava com uma longa discussão interna.

Foi então que, após algo causar um ensurdecedor barulho lá fora, a vela escorregara de sua mão, caindo sobre o livro. A ilustração que fizera na folha em branco do livro agora era tomada pelas chamas, e a face do seu protagonista enrubescia aos poucos. E sem saber o motivo, Ali observara, sem reação, enquanto o fogo buscava novas vítimas em seu quarto, encontrando o tapete ao qual Ali cultivava certo apego. Quando tomara consciência do que acontecia, o quarto já era só chamas, e o calor percorria seu corpo de forma que tirava-lhe qualquer atitude que a pudesse tirar dali. Olhava ao redor assustada. Seu coração estava acelerado de modo que pensava que cairia a qualquer momento, pois sua respiração já era debilitada. Tudo o que conseguia ver era o livro, que por alguma razão desconhecida, não deixara-se queimar na marcação “13” da página.

Em sua mente, Ali percorria todos os caminhos que já trilhara. “Não se brinca com fogo, Ali”, a voz de alguém soava constante em sua mente. “Fogo, fogo...”.  E já com as mãos cobrindo o pescoço, com os olhos lagrimejando devido a falta de ar, ou porque chorava, notou a ilustração se reconstituir. Suas pernas perderam força e seus joelhos dobraram-se, fazendo-a cair sobre o tapete tomado pelo fogo, onde as chamas recuavam apenas para Ali e o livro. Foi perdendo os sentidos, com os olhos focados no desenho. “Fogo, fogo...”, e a voz que repetia incontáveis vezes em sua mente, pareceu estar ali, no quarto. O calor que sentia já não era apenas o do seu corpo, pois teve a certeza de que alguém sussurrava em seu ouvido. Sentiu o corpo relaxar, os sentidos irem, e ser tomada por uma força que a tirou o medo naquele momento. “Aparentemente ruim, mas bom, no fim das contas”, Ali vagava na contradição que era sua mente. “Fogo, fogo...”. Mas, apesar do dos sussurros, ao abrir os olhos, viu uma luz aproximar-se. E quanto desviou o olhar da luz que preparava-se para envolve-la, notou uma face conhecida. Piscou, confusa, e, ao notar uma expressão formar-se naquele rosto, uma sentiu o efeito de uma explosão ao seu redor.

Ali abriu os olhos. Olhou pelo vidro e notou a casa vizinha iluminada. Baixou a cabeça e notou o livro à sua esquerda, e a vela, à direita. Com uma breve expressão de desaprovação, baixou mais um pouco e soprou a vela, sendo envolvida pela escuridão do quarto. 

You Might Also Like

0 Comentários

Obrigada pela visita! ♥

Popular Posts

Like us on Facebook

Flickr Images

Subscribe