Do teu Arcanjo hoje Anjo

sexta-feira, abril 13, 2012

Peço-lhe, destemido entregador, que coloque em suas mãos de modo que sinta o toque que deixarei envolto à carta que estais a segurar. A olhe nos olhos, pois isso a fará entender o meu recado, mesmo que não de imediato. Ah, sei que vai. Micaella possui aquele espírito curioso dentro de si, algo tão fascinante que você, se você pudesse, adoraria ser alguém que ela convidasse para compartilhar. Mas é isso, meu caro entregador, meu posto aqui não me dá tantos privilégios. Não importo-me, farei-o agora, sem receios. Estou com aquele velho anseio de quebrar as regras, porque talvez isso me permita... Isso, vá, meu caro amigo.


"Uma vez eu disse a você que esquecesse suas tristezas, lembra-se? O impossível fiz para acalmá-la, esta alma tão sã e próspera. Lembro-me que disse que adoraria poder voar, e que se o fizesse, me levaria junto à ti. Recolhi-me com a idéia, afinal, eu teria de fazer isso, eu era mais forte, e você tão frágil. Sua reação ao ver a expressão que se formara em meu rosto foi debochada, “duvida do quanto posso ser forte, arcanjo?”, e jogou sobre mim o último gole que ainda havia no copo com água que eu havia trazido de casa depois de tanto corrermos pela campina da fazenda. Você ainda tinha sede, mas seu interior de menina travessa não conteve-se a mais uma vez surpreender-me. Foi naquele dia, que passou a mostrar-me mais sobre você, a me surpreender das maneiras mais belas que alguém poderia fazer à alguém que lhe depositava tanta afeição. Naquele mesmo dia, após observarmos o sol se pôr sobre o capim próximo ao celeiro, que tocou minha mão e levou-a até seu pulso e perguntou se eu sentia a adrenalina que a paisagem lhe causava. Eu sorri, e você, com outro sorriso, assentiu. Entre nós, algumas vezes, palavras eram dispensáveis, compreendíamos um ao outro apenas com um simples olhar, aquele simples piscar de olhos.



Os dias iam passando, e nós voltávamos todos os dias juntos da biblioteca após a aula. Passei a chamar-lhe para ir à cidade comigo, e então comprávamos o que havia em minha lista de compras e mais aquelas guloseimas que você adora comer. A cada novo dia, um novo pulsar preenchia um vazio que eu construí em algum momento de minha vida que eu desconhecia. Suas risadas elevavam minhas forças. Era como se estar perto de ti me fizesse acordar em uma bela manhã, e não durante aquelas tempestades que cercavam-me quando eu pouco reparava em ti.

Desculpe, minha querida, pelas vezes em que passei por ti no corredor e não a notei por estar tão distraído com algo que hoje pouco quero lembrar-me. Sinto muito por àquela vez em que durante seu discurso no dia da independência, cominei com um ataque dos meus colegas e ri diante de ti, naquela imagem, naquele véu que os que me rodeavam colocavam à sua frente. Você olhou meu comportamento e percebi que, naquele momento, não me julgou, apenas tomou ar e continuou, como uma mulher e não uma simples garota faria. A partir daquele dia, do meu vexame diante de ti, dei-me conta do quanto estava sendo imprudente com minhas atitudes. Como eu pude, Micaella? Sempre fora a alma mais bela daqueles corredores. Depois daquele dia, votei em sigilo para que fosse a oradora da turma, votei para que fosse eleita a representante estudantil, pedi aos céus para que me nota-se em meio àqueles milhares de estudantes que cruzavam seu caminho todos os dias. Passei a assistir seus discursos, ah, quão belas eram suas palavras, quão impressionante era seu dom de falar tão docemente dos assuntos mais complicados. Eu passaria horas observando-a falar, ouvindo o tom de voz que hoje ouço calado. Ah, minha querida.

O que me encanta em ti é tua vontade. Tua esperança diante de tudo. O rancor nunca transpareceu em tua face, por mais que o sentisse, algo que nunca tive conhecimento ou notei. Hoje, peço-lhe que se acalme. Tens, Micaella, uma vida de realizações inteira pela frente, coisas que construí pra ti estão ao seu lado, basta apagar este véu obscuro que a cega e prestar atenção.

Enquanto assopro-lhe estas palavras (pois é, Micaella, não as estou escrevendo, isso a lembra de algo?), meu sangue ferve ao reparar tudo o que a rodeia. Tenho a mesma sensação de quando queria estar perto de ti e não podia, só que agora, com maior intensidade. Tudo em mim agora é intenso, e meu maior desejo era poder sentar ao teu lado sobre o capim da fazenda e assistir ao pôr-do-sol que daqui vejo de um ângulo diferente. Observar o amanhecer, como no dia em que minhas emoções falaram mais alto e fizeram-me deslocar o caminho ao vê-la sentada sobre àquela pedra na beira do lago. Me ajoelhei ao seu lado e você mostrou-se assustada, porém, ao ver-me ali, tão impotente à seus pés, sorriu. Você sorriu amigavelmente para alguém que nunca havia trocado nem um cumprimento, por negligencia minha.

Seus olhos estavam vermelhos, e perguntei o que a afligia, e você, confiando naquele completo estranho, pronunciou meu nome e confessou estar com medo. Disse que se aquele dia em que ri durante seu discurso se repetisse, largaria o palco e voltaria correndo para casa. Não me contive em abraçá-la e desculpar-me. A senti relaxar, e então partimos lado a lado para seu discurso. E fora tão incrível que naquele mesmo dia, corri até o lago assim que o sol começou a se pôr, e entreguei-lhe uma rosa por mais um dia próspero. Você agradeceu-me com um radiante sorriso e convidou-me para observar aquela maravilha junto a ti. Dias como aquele repetiram-se, e em um deles notei um dente-de-leão ao lado da pedra e assoprei rente a seu rosto, lembra-se? Naquele dia disse-lhe que não gostaria de ser um dia como flores, por, apesar de trazerem beleza e maravilhosos odores, estarem vulneráveis à qualquer um que a tomem, como eu ali fizera. Você encolhera os ombros e nada disse. Pois é, aqui estou eu, talvez, pagando pelas minhas palavras daquela tarde.

Mas, esquecendo qualquer bobagem que tenha saído de mim, quero que saiba o quanto sinto tua falta. Eu trocaria o lugar onde estou para voltar e estar ao teu lado. Aqui é maravilhoso, Micaella, porém, não mais que observar teu sorriso, teus olhos, teu jeito e manias. Peço-lhe que enxugue suas lágrimas, erga a cabeça e sorria para o mundo, pois era isso o que me dizia diariamente. Fora isso que me dissera quando esqueci tudo ao meu redor e lhe confessei que não suportaria passar um dia sequer longe de quem me fazia feliz, aliás, de quem me faz feliz! Pois seus feitos são grandes, sua capacidade é ricamente destemida. Lembra-se deste momento? Pois este, dentre todos os outros que você me proporcionou, vive intensamente em mim.

Tínhamos acabado de chegar de mais uma tarde andando à cavalo, uma de nossas novas rotinas, e paramos naquele nosso costumeiro lugar perto do celeiro. Naquele dia, resolvi levá-la até o lugar onde eu costumava ir quando você ia embora quando caía a noite. De lá, a vista era incrível, e eu queria falar-lhe algo que vinha ensaiando dias para dizer. Quando lhe propus, você sorriu e fez-se apostar mais uma corrida "para fechar o dia", como disse-me. Corri atrás de você, e meu coração parecia querer saltar-me o peito. Eu estava com medo, confesso. Apesar de todas as atenções que eu possuía, a sua era a que mais importava. Dentre todos os corações que eu poderia ter o seu era o mais valioso, o que mais trazia luz consigo. E naquele final de tarde eu queria ter um espaço dentro dele. Você subiu as escadas e parou em frente à janela, e eu, que vagarosamente subia as escadas, parei no último degrau e a observei enquanto seu olhar encontrava o meu. A vi virar de costas e então fui até você. Lembro-me que foram exatos quatro minutos até o sol começar a se pôr. Na minha insegurança, arrisquei começar uma conversa sobre o tempo, fazia calor, lembra? Você apenas sorriu e me censurou por nunca a ter levado até lá, pois, dali era tão lindo quanto no nosso costumeiro lugar, observar a noite chegar. "Eu o guardava para este dia, Ella.", falei, evitando o olhar que você lançara em seguida. Alguns poucos segundos depois a olhei e disse que tudo o que sempre quis estava ali, à minha frente, e por nada neste mundo, a queria perder. "Não desejo nunca perder espaço em sua vida, e se o que estou fazendo não esteja certo, por favor, ignore, pois não suportaria perdê-la. Nunca.", meu coração parecia querer parar enquanto eu sucumbia com a hipótese de não ser correspondido. Você me olhava, séria. E então, após segundos que me pareceram eternos, você se aproximou e me disse-me tudo naquele beijo desconcertado. O que você queria? Minha respiração era quase vaga. Eu me desculpei e você sorriu. E depois daquele dia, além de cor, meu dia passou a ter mais luz.

Meu tempo é vago, então mais uma vez, peço desculpas, porém, agora, por um dia desenterrar um passado já esquecido e reviver meus tempos de negligência. Desculpa, Ella, por um dia lhe dizer que não suportaria sua perda e partir assim, sem dar satisfações. Quero que, não deixe-se levar pelas fraquezas do mundo. Somos fortes e fracos, e cabe a nós escolher qual lado preencher. E você é forte. Vou terminando esta carta neste último parágrafo, mas saiba que nunca a deixarei desprotegida, pois agora fui destinado a te cuidar. Você desejou um dia poder voar, e eu adoraria ir até você agora e realizar este sonho. Então, à noite, quando for dormir, imagine-se próxima à janela. Deixe-a aberta. Sei que costuma sentir frio durante o sono, mas faça um esforço e não a feche. Você me ensinou a quebrar regras para coisas que valem à pena, e aqui estou quebrando uma por você. Nunca deixe que o sorriso lhe fuja do rosto, me promete? 

Eu te amo. 

Daquele que você chamava Arcanjo, seu Anjo." ... Porque talvez isso me permita ser expulso do meu posto. Qualquer contato aqui me é vago, e este que eu acabara de realizar é infligir uma regra que luta contra essa minha segunda vida, entregador. Quebro-a sem pensar repetidas vezes, pois talvez isso me possibilite cuidar dela de perto, como deve ser. E desta vez, sem erros.  

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