Como naquele dia anos atrás

quinta-feira, janeiro 19, 2012

Era verão. Lembro-me que o sol pairava ameno sobre a cidade; a cidade que eu pouco conhecia. Lá fora o ar era denso e agradável, diziam-me. No entanto, eu o sentia pesado e temia que o aperto dentro de mim só piorasse quando eu o resolvesse enfrentar por algumas horas; eu o havia feito por alguns minutos apenas. Pela manhã eu até me sentira bem, mas ao olhar para o café da manhã, meu corpo protestou e o recusou. Durante o almoço mal pude sentir o sabor do velho e amado tempero. A sensação não passara nem quando coloquei a roupa que me fez sorrir, quando os fios do meu cabelo caíram perfeitamente sobre meus ombros estendendo-se até a cintura.

Olhei no relógio e ao respirar profundamente ergui a cabeça e fui rumo ao que me esperava. Caminhei despreocupada, sem querer chegar aonde deveria. Olhei a paisagem pouco agradável e prestei atenção em detalhes nunca notados. Belas visões para acalmar um coração, resmunguei, erguendo a cabeça em seguida e notando também o meu local de destino. Após um longo suspiro entrei. O lugar estava amarrotado de pessoas; muitas luzes iluminavam o local. Ignorado-as subi as escadas e segui o corredor olhando as pessoas. Foi quando o aperto que se estendia até aquela manhã cessou. E naquele instante percebi que o que eu precisava estava à minha frente, com aquele sorriso encantador e diferenciado que tanto recebi em nossas brincadeiras infanto juvenis. Fui até ele e fechei os olhos ao sentir seu abraço caloroso; a saudade se esvaia aos poucos, porém, eu sentia que não seria o suficiente, eu estava a despistá-la.

Parecia que anos não haviam passado, éramos os mesmo. Ele com seu sorriso enfeitado por seu olhar intimidador, eu com meus gestos e olhares que dispensavam palavras. Nossos risos encontravam-se  sem muitos intervalos, seu jeito menino de ser me animava e trazia lembranças marcantes. Existem momentos e pessoas que mesmo que queremos não se vão tão fácil, às vezes ficam no canto escuro daquele armário do último e abandonado cômodo, mas existe um momento em que voltamos até lá e o encontramos naquele canto e nos perguntamos porque ali o deixamos; como desprezar e fazer menos importante algo que nos faz sorrir, lembranças que chegam até nos trazer longas risadas? Algumas vezes podemos revivê-las e renová-las, como eu estava a fazer. Não havia culpa nisso, nunca haveria. E ali estava eu, sentindo-me leve como nunca, relembrando feitos que arrancava-nos risos e poucos que nos faziam silenciar e olhar para o lado. Não cansávamos de nossas brincadeiras costumeiras, e repetíamos como crianças sem hora para ir para a cama; não tínhamos horário.

O sol intensificara seus raios sobre a cidade, e sob o calor contemplamos o tempo. Eu soube de seus feitos durante aqueles anos e ele soube os meus. Sorriu quando contei dos meus tropeços, e abraçou-me quando meu olhar baixou e sentiu-me silenciar aos poucos; mais uma vez eu fechara os olhos para sentir a intensidade que sua proximidade me causava. Era bom, era proteção; a proteção que não tornou-se vazia com o passar dos anos. Foi então que ergui a cabeça e mudei o assunto. No entanto, ele mudara rapidamente, dizia-me sobre superar obstáculos e tentar apesar das dificuldades, eu não poderia desistir de algo que eu gostava. Ele não baixou os olhos ao terminar uma de suas frases, enquanto eu o escutava em silencio, segurou-o nos meus por segundos que me pareceram minutos. Vi em seus olhos tudo o que se perdera, uma promessa não cumprida e uma infância que ainda não terminara; minha infância, a ideia mais profunda que eu havia construído e conservava desde sempre, que eu sempre sonhara e naqueles olhos recordava. Não havia ninguém ali, era como se o mundo tivesse dado espaço para uma retomada de lembranças não mencionadas e evitadas girarem em torno de nós. Eu queria sorrir, e o fiz. Estávamos focados naquela retrospectiva, e era como se todas as luzes tivessem se apagado.

Foi então que o instante se foi, e os segundos que pareceram minutos, os minutos que pareceram horas, e as horas que acenderam-nos uma fase, apagaram-se quando ambos demos conta do que fazíamos. Não deveríamos sentir o que agora sentíamos, e todas as lembranças e proximidades daquele dia nos aproximava mais, no entanto, sabíamos o que aquilo poderia causar. Todas as memórias boas camuflavam as poucas que pouco agradavam, e era assim que queríamos conviver, era contendo uma promessa que deveríamos viver. Nossos olhares desencontraram-se e contemplaram a paisagem que tentava me acalmar, mas aquilo não era o suficiente. Levantei e pela última vez naquele dia fechei os olhos sendo envolta por seus braços que me deram proteção durante todo aquele dia. E, evitando mais um olhar, virei-me e me afastei, dizendo a mim mesma para não olhar para trás. E então virei-me e olhei, mas ele já estava em seu andado despreocupado que me arrancara um sorriso.

Era verão. Como naquele dia anos atrás.

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7 Comentários

  1. texto extenso e lindo, belissimas palavras "veraneias".

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  2. Um texto melancólico de um amor perdido e por momentos reencontardo... nem que seja apenas em imaginação!
    Sorri e entristeci-me ao mesmo tempo.
    Lindo texto.

    mfc
    Pé de Meia
    http://pedemeias.blogspot.com

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  3. Uma recordação ou um sonho?!
    Algo que se queria revivido, mas de que fica a esperança de um dia reviver...

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  4. Olá, eu estou c uma parceria com o blog alameda 06.

    http://www.alameda06.com/

    De uma passadinha para conhecer....

    Você vai gostar...!

    Alameda06: o endereço certo para a mulher bela e inteligente.

    Um abraço Singular..!

    ResponderExcluir
  5. Puta romance esse!!
    Não desperdice gata!!!


    beijo

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  6. É como aquela frase clichê "De qualquer forma eu ainda sinto o mesmo aqui dentro. Mas do lado de fora, tudo é bem mais complicado." :S


    PS:tem um meme p/ vc lá no meu blog :)
    perdidanosuburbio.blogspot.com

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  7. Mais do ler... é sentir cada detalhe, e depois a mente ficar descrevendo. Parabéns pela escrita!

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Obrigada pela visita! ♥

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