O sábio

segunda-feira, dezembro 19, 2011

Certa vez, pega desprevenida, um velho sábio me despertou de um sono muito profundo. O percebi movimentando-se pelo meu quarto inquieto. De sua intenção não cabia me despertar, apenas me observar enquanto, de olhos fechados, sorria por algo que ele não entendia. Quando meus olhos abriram-se, o vi parado, inerte, sem ação, notando que eu o podia ver. Então, após uma breve olhada para o teto, contemplando longe, o que logo compreendi, girou em seu próprio eixo e foi em minha direção. 
Não tive medo. Ele era sábio, e isso não pode dizer que qualquer um notaria, mas eu notei. Como? Ele vestia-se como mago. Lembrou-me o Merlin dos livros.

Vagarosamente ele chegou perto de mim. Girou umas das mãos frente ao meu rosto, fazendo meus olhos acompanharem no seu giro completo, e em seguida, após apontar, me elevou. Senti-me flutuar, e quando notei, repousava em uma linda nuvem, fronte a uma gigante azul. E bem longe, à altura de meus olhos, a linda Lua.

O sábio, o mago, talvez, Merlin, despertou-me com um estalar de dedos e perguntou-me: Por que sorri enquanto repousas? Deves apenas descansar, mas não entendo, você sorri.

Com um leve sorriso, o contemplei por alguns segundos. Sua pele brilhava como se refletisse a gigante azul atrás de si. Seus olhos eram tão azuis quanto o céu durante o dia, e suas mãos pareciam cansadas, tão usadas por aqueles longos anos da mais pura e incrível magia. Dirigi-me a ele: És tão sábio, e tão pouco entende do que me questionas. Não posso crer. Há quantos anos bate seu coração?

“Por séculos. E mais séculos estão por vir. Meu coração baterá por muito, muito tempo.” Ele pareceu-me cansado. “Responda-me, minha querida. Porque tanto sorrires?”

A nuvem cedeu um pouco. “Acredita em anjos?” Seus olhos arregalaram-se com minha pergunta. “Pois eu sim.” Apontei para a gigante azul à suas costas. “Por muito acreditei em sua existência. E olha só, ali está ela. Tanto acreditei neste universo ao qual admiro agora... Tanto observei-a de longe, e olha só, não creio estar tão longe da saudosa Lua que ilumina minhas noites, sejam elas frias ou quentes.” O sábio pareceu confuso. “Veja só. Eu sempre acreditei naquilo que meu coração desejava com total afinco.” Sorri. “Anjos, Merlin, anjos.”

“Como portam-se?” Questionou-me.

Levantei-me da nuvem que pouco a pouco sedia mais. Meu tempo estava acabando naquele belíssimo universo. “Da maneira mais linda que podes imaginar.” Rodopiei “Experimente abrir o teu mundo para que eles iluminem teu caminho.”

Ele pareceu ainda mais confuso, porém, após uns estalos vindos da nuvem percebeu que o tempo não o favoreceria, e teria então de compreender as palavras que eu lhe acabara de direcionar. “Farei como me aconselhas.” E então arrancou-me sorrisos. “Acho que já contemplou o bastante os teus sonhos. E, aliás, não sou Merlin.”

Minhas sobrancelhas ergueram-se. “Não?” E ele apenas piscou para mim. “Bons sonhos.” 


"Você não está sozinho
Juntos nós ficamos de pé
Estarei ao seu lado
Você sabe que segurarei sua mão"
Keep holding on, Avril Lavigne

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7 Comentários

  1. Se uma simples menina quase conseguiu confundir um "sábio", eu compreendo que a sabedoria, felizmente, não é privada a alguém ou a um grupo social. Pelo seu texto, basta sonhar e compreender a vida que a sabedoria é adquirida.
    Bom texto, parabéns :D

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  2. Não percebi o teu comentário..

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  3. Puta que pariu! Fazia tempo que não lia um texto e me deliciava imaginando cada palavra em cena!
    Magnífico!

    Porque um sábio desses não me vem visitar durante a noite? droga!!

    Ótima noite!

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  4. que texto lindo, com um toque de inocência que não vemos mais!
    Amei mesmo!

    http://pamlobo.blogspot.com/

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  5. Fico fascinada por contos tão bem contados, como esse. Lindo!

    Um 2012 pra você, cheio de realizações e muita paz. Um grande abraço!

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Obrigada pela visita! ♥

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