À luz da trilha

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

   A noite cai e ela, Alicia, levanta-se confusa da cama, onde há poucas horas atrás deitara e em instantes adormecera. Mais uma vez ela trocara o dia pela noite, sabia que o sono lhe visitaria novamente apenas quando estivesse mais uma vez amanhecendo. Poderia tomar algum remédio que a fizesse dormir, ou aquele chá que costumava tomar quando via sua mente extremamente agitada, mas não o fez. Preferiu deixar o sono vir naturalmente sem qualquer tipo de intervenção externo- interno. Encheu um copo de água, bebendo-o instantaneamente, e assim que algumas gotas de chuva entraram pela janela tocando-a no rosto, algo se iluminou a sua frente. Não viu qualquer tipo de forma, apenas um borrão prateado que se tornava intenso.

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Foi então que Alicia deu-se conta de que a luz não vinha externamente dela, era internamente. Deu-se conta disso quando abriu os olhos e sentiu seu corpo apoiado em algo macio e que a fazia sentir cócegas. Notou o límpido céu sobre ela. O sol emitia de modo disperso seus raios. Logo amanheceria. Alicia tateou o chão, e notando que sobre ela, uma cortina de diversificadas cores e tons impediam-a de admirar a beleza do céu, levantou-se rapidamente. Era um bosque. Logo ficaria escuro e sombrio como todos aqueles outros que visitara numa outrora. Ela caminhou devagar, sem pouco entender porque ali estava. Lembrava-se de momentos como este, porém não sabia como. Era como se ali já estivesse por diversas vezes, mas dos acontecimentos, nada lembrava.

Por duas horas caminhou, dando a si, intervalos em que parava e sentava para descansar as pernas que ficavam bambas de meia em meia hora. O sol já estava se pondo quando notou, entre um arco formado de árvores, uma forte luz alaranjada vinda de sua cavidade. Desconfiada, seguiu a trilha entre as árvores. Quanto mais caminhava, mais comprida parecia ser a trilha. A luz se afastava. O coração de Alicia acelerava, fazendo-a apressar os passos antes dispersos. Não sabia o que a esperava adiante, mas queria desvendar, seja lá o que fosse. Seu instinto aventureiro se manifestava com mais intensidade, e sua adrenalina tornava-se alta a cada novo passo. A luz começou a perder sua intensidade, seu coração parecia querer saltar-lhe do peito. Começava a sentir-se cansada. “Não deixe que o cansaço me vença”, pedia. E então sentia o vento soprar forte sobre ela, esvoaçando seus cabelos, deixando alguns fios caírem em seus olhos, atrapalhando-a. Começou a notar que quanto mais andava, quanto mais a luz queria sentir, mais recuava como se andasse em algum tipo de esteira elétrica. Sentiu frio. Sentiu calor. As trocas de energia entre ela e o ambiente foi forte o bastante para fazê-la parar, apoiando as mãos sobre os joelhos, e ofegante, olhar a adiante, encarando a luz que não parecia querer ser decifrada.

Alicia, ainda na mesma posição, fechou os olhos e passou a refletir em seus pensamentos. “Eu quero.” Ergueu a cabeça. “Eu vou”.  E assim seguiu adiante, porém a sensação de estar em uma esteira continuava. Foi então que a luz voltara a intensificar-se, e desta vez obrigou-a a erguer os braços para proteger os olhos do raio que parecia formar-se no horizonte.  Quando se sentiu segura para abrir os olhos antes semicerrados, sentiu seu coração tornar-se preciso em seus batimentos cada vez mais intensos.

Quanto a seu coração, Alicia não sabia o que fazer. Medidas lhe fugiam da mente, pois agora ela mais do que nunca queria alcançar o local da luz. Uma linda melodia tomara conta de seus ouvidos, e foi como se as folhas das árvores começassem a cair como no outono, as flores desabrochassem como na primavera, o calor aquecesse seu coração como no verão, e uma brisa gélida e dócil passasse acariciando seu rosto como no inverno. Palavras e lembranças eram ditadas em sua mente, como se alguém as estivessem relatando em seus ouvidos, ela podia até ouvir um tom de voz. Tudo acontecia enquanto ela caminhava. E podia ver bem à sua frente algo caminhar em sua direção. A luz deixara-se ser decifrada por segundos, pois logo a forma que por alguns instantes se formara, novamente fora envolvida pela luz.

"Encontre. Decifre.” Sua mente a comandava. E ela a estava obedecendo. Não sabia como, mas conhecia aquele caminho. Tudo ao seu redor a inspirava lembranças, e por assim fazer, sorria. Ela podia sentir o doce aroma de cada estação, e por vezes, todas juntas numa festeira combinação de sinestesia, imaginação e realidade. “Existem coisas que já estão em sua realidade. Observe. Perceba.” E foi então que viu a imagem. E deu-se conta de onde estava, e de que sabia o tempo todo quem a luz envolvia. E tomando consciência, apressou-se a alcançar o fim da trilha. Quando, a um passo de sentir-se banhada pelo aroma do pôr-do-sol, sentiu seus pés perderem base. Tudo ao seu redor tornou-se trêmulo. À sua frente, só uma coisa tornava-se cada vez mais nítida. E a nitidez sorria para ela.

Abriu os olhos e notara já estar amanhecendo. Não estava em sua cama aquecida e acolhedora, seu corpo repousava sobre um tapete de veludo e pequenos galhos secos. Ainda deitada, virou o rosto a procura da trilha, da luz. Nada. Apertou os olhos e viu. Seu rosto iluminou-se. Tudo nela levava-a a um único caminho. A uma única resposta para o enigma. Ela não alcançara a luz que pedia para ser decifrada, que fugia de sua realidade, mas se deu conta que tudo o que precisava estava na sensação em que sentiria ao tentar alcançar a luz ao ver o que ela envolvia. Que para obter uma resposta, uma confirmação, um caminho deveria ser trilhado.

Mais um dia amanhecia, e Alicia sentia-se completa. 

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2 Comentários

  1. E não importa quão longa seja a noite.. sempre chega o amanhecer!!!

    xD


    Post perfeeeito!!!
    Adorei.

    bjoo

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  2. Adoro seus textos,Brunna ! Continue assim e sei que você vai longe. Beijão.

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Obrigada pela visita! ♥

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