Imortal

quarta-feira, junho 02, 2010


Foi num passo grotesco que me atirei sobre a cama empoeirada da antiga casa de meus antepassados. Foi em um gesto desconhecido que encontrei um diário, ah, aquele diário. O diário que por tantos anos aguentou de minhas súplicas, desventuras e desejos. Foi ele que tanto se viu ser rabiscado por frases incompletas e sem sentido para quem um dia viesse a lê-lo. Minhas mãos vagavam por entre o local onde a dias não passava uma chave cheia de divindades, e sem vestígios de humor, deixei uma lágrima vagar em linha reta pelo meu rosto em direção ao livro de minha vida incompleta, jogando-o então, do outro lado daquele quarto escuro, iluminado vagamente pela luz da luminária fraca.

E foi por este gesto brusco e sem sentido, cheio de uma raiva que nunca fora minha, que vi a parede se consumir em pó, e livros agora na ausência de uma prateleira velha e empoeirada. E foi através deste mesmo movimento que percebi uma silhueta por trás da destruição, e ela andava disfarçadamente, pois percebi, após analisar tal silhueta, que seus pés moviam-se em pequenos passos, quase que parando. Não quis manifestar-me quanto ao que vinha ao meu encontro. Eu não me importava com que viesse em seguida. Nada importava mais.

Foi então que senti a música vinda de fora intensificar-se, e em seguida o bilhete embaixo do travesseiro levitar sem gravidade alguma e transformar-se em fogo. Chamas o consumiam aos poucos, e foi devido a isso que me obriguei a apertar os olhos, desejando que tudo aquilo não estivesse realmente acontecendo.

Não me movi. O pó que subia a cada movimento meu naquela cama já não me trazia efeitos a tempos e isso me lembrou de que aquela não se tratava de uma simples casa. Aquela era a minha casa. Mas, desde o momento em que descobri o porquê de tal pertencer a mim, desejei jamais ser daquele jeito. Desejei jamais ser eu mesma.

- É dia, ou é noite? – perguntei à silhueta que agora era mais visível, indo em direção a janela que estava vetada por madeiras, deixando-me exilada do dia lá fora. – é noite? – eu continuava a contemplar o vazio.

Nada.

Então senti uma proximidade vir de encontro a minha mente vazia; ao meu corpo desconectado da realidade.

- Você que fez isso? - Uma voz aveludada, uma voz que de longe conseguia acalmar meu coração no momento em que tocava meus ouvidos, fez com que um suspiro profundo tomasse meu corpo, fazendo-me virar, deparando-me com um olhar enigmático.

Um olhar enigmático e tão compatível com o meu.

Assenti.

- Sim, é noite. Mas a minha noite está sendo diferente da sua. A minha exila trevas, e a sua está a convocá-las mais intensamente a cada segundo.

Ele tocou meu rosto com as costas de sua mão aquecida e gentil, fazendo com que eu recuasse em reação a seu toque convidativo.

- Não sou o que você acha que sou. A tempos visto uma face que não é minha. E estou cheia de ter de assumi-la sempre que me deparo com sua presença. Não quero mais ter de mentir pra você. Nunca.

Ele se aproximou.

- Não somos tão espertos como pensávamos que fôssemos. – E de repente o diário que se encontrava entre a toda aquela confusão de pó e livros apareceu rapidamente em uma de suas mãos. – Aqui está a chave se você quiser voltar a escrever – Do bolso de sua jaqueta retirou a chave dourada desaparecida a dias do meu diário – E aqui está toda a verdade sobre nós dois.

Ele girou a chave na fechadura do diário. A música lá fora cessara. Então abriu na página onde o marcador, como eu percebera, marcava, entregando-me o livro de minha vida em minhas mãos. E ficou a me observar, com uma expressão séria e rude.

Comecei a ler o que estava escrito naquela página amarelada pelo tempo, e no silêncio mortal, todos os detalhes de repente se encaixaram, numa explosão de intuição. Todas aquelas frases, letras e versos eram de minha autoria, mas não possuíam minha letra, possuíam as dele. E no final havia uma observação:

“Sempre houve uma coisa que tive de omitir a você por temer alguma diferença entre nós. E utilizar de faces já estava me cansando. Sempre tivemos de morrer um para o outro fisicamente. Mas você nunca morrera em mim. De alguma forma você sempre estivera viva, pois eu sentia sua presença a todo momento. E agora tudo faz sentido. Fiquei cansado de te perder por medo de ser eu mesmo. E isto não se resume só a mim, isto se resume a nós dois.”

Senti meu coração acelerar à última frase escrita, e tal fora umedecida por uma lágrima que escorrera por meu rosto.

- Uma vez você me pediu uma prova de amor, e tudo o que recebeu foi uma ligação informando minha morte. Tinha de ser assim. E agora descubro que ambos nos magoamos apenas por medo.

- Você também...? – perguntei, não dando atenção para o que ele acabara de falar, mas ainda contemplando o que acabara de ler.

- Sim, e juro por nossa imortalidade. – Sorri em reação a sua resposta, sendo envolvida por seu abraço aquecido e do qual por séculos senti saudades.

- Agora é para sempre. – Sussurrei, sentindo seu coração bater levemente. – Agora... – Ele falou baixinho, fazendo um movimento com a mão que fez com que toda a obscuridade daquele quarto se esvaísse, deixando o brilho da lua novamente banhar nossas palavras; como da vez em que nos encontramos pela primeira vez. -... Será eternamente.

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11 Comentários

  1. Uau! Que texto lindo *-* emocionante, parabéns, blog lindo também .-.

    Estou seguindo viu? *U*

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  2. Lindo texto ^-^
    Seu blog é adorável ^-^ ou melhor, lindo.

    seguindo, tá?

    bjão =^.^=

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  3. Nossa!!
    Seu post me deixou sem palavras.. está muito maravilhoso!!

    Não some mais não viu!!rsrs

    Tenha um ótimo final de semana!!
    bjos

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  4. O texto está muito perfeito,
    é para o Once Upon a Time não é?
    Se for, você já ganhou, eu tenho
    certeza.
    xx

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  5. Olá, passando para te convidar para conhecer o Projeto In Verbis.

    http://oprojetoinverbis.blogspot.com/

    Abraços.

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  6. que post lindo *-*
    tem um selo pra você no meu blog:
    http://umahistoriasugestiva.blogspot.com/

    beeijos

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  7. Me emocioneeeei, garota. Que texto lindo, romântico e todo misterioso. Amo seu jeito de escrever, pra falar a verdade. É envolvente. ;*

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  8. Oi, Bruna.
    Parabéns pelo blog, tudo aqui é lindo. Amei seu texto, muito bom de verdade.

    beeijos.

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  9. ae ae que texto lindo, que layout perfeito, quero um igual saudhsiaudhiasu
    beijos amr.

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  10. Ownt, que liiiiindo. Eternamente? Quero um amor assim tbm *o*
    amei aqui,
    beijos

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