Praia III

domingo, fevereiro 14, 2010

“Acontecera tudo simultaneamente. Acontecera de modo que eu não momentaneamente planejara.”
Havia uma luz atrás de mim. Havia uma sensação que consumia cada vez mais em meu peito. Eu sabia o que era, e mesmo querendo estar certa; desejando aquilo, eu temia. Aquilo não me amedrontava, mas o que podia me fazer era o que realmente me assustava. Nunca me machucaria fisicamente, mas internamente eu me sentia machucada apenas de observar seus olhos traiçoeiros.

Corri, e desta não fora por meu instinto, fora por mim mesma. Eu queria fugir daquela situação.

O liquido incolor que corria por meu rosto era aquecido; quase fervilhava com aquele ardor interno. Ora fosse por algo ruim, algo bom; eu não sabia. Os sentimentos que se reascendiam em mim eram desconhecidos. Eu quisera-os esquecer. Quisera-os fazer com que tudo aquilo se esvaísse por completo.

Sem marcas.

Sem rastros.

Eu ainda podia ver a luz da criatura na areia. Talvez, só eu a via. A luz ficara guardada em minha cabeça. Estava impregnado de modo inconveniente e agoniante.

Como tirá-la?

Eu presumia como.

- Se afaste! – Levei minha mão esquerda às costas, em movimento brusco, algo parecido como quem quer lançar algum tipo de feitiço.

Tudo ficara quieto.

A intensidade da luz diminuíra.

- Vá! – repeti o gesto.

Nada acontecera. A luz se intensificara.

- Por favor... – Minha voz começava a falhar aos poucos. Os soluços, assim como as lágrimas, se tornavam agressivas. – Não gosto de brincadeiras. Nunca gostei. Nunca irei gostar.

Um movimento.

- Cansei de tentar me simpatizar por qualquer uma delas. Esconde-esconde nunca fez de mim uma criança alegre.

Meu olhar era fixo na areia e minha mão direita mexia compulsivamente em meu cabelo que começava a embaraçar devido a água do mar.

De repente a luz se intensificara mais do que a última vez. Agora ela era incontrolável.

- Acredito que não queira se dissolver. – Eu gostava daquele tom aveludado e sarcástico. Ele fazia com que todo aquele ardor confuso dentro de mim tomasse respostas objetivas. Porém, respostas dadas por mim mesma; ora dadas pelo desconhecido.

- Fala isso porque está... – Meus pés, por instinto, viraram-se em meia volta. E meus olhos se puseram de encontro aos olhos da águia atrativa e traiçoeira, fazendo, como da primeira vez, que eu entrasse em êxtase.

O êxtase parecia inversível até que sua voz distante cortasse o efeito:

- Morto? – Sua sobrancelha esquerda levantara em um movimento ligeiro, sua boca entortara sorrateira, e seu olhar hipnotizara o meu.

- Acredito no que os meus olhos vêem. – O que eu estava fazendo?

- E seus olhos vêem que eu estou morto?

Ele se aproximara.

- Eu já falei que não gosto de brincadeiras. – Agora eu sabia o que fazer. – Não quero mais vê-lo. Meu coração, minha razão; tudo em mim... – as lágrimas novamente se formaram e os soluços surgiam aos poucos. -... Pede para que vá embora... Para sempre.

Eu não queria saber de sua reação. Não queria mais observar de sua face atrativa e perfeita. E não queria mais provar daquela sensação que me fazia parar e deixar-me ser hipnotizada por aqueles olhos dourados e aquele sorriso enigmático.

Minha lucidez. E não ter mais duvida sobre uma suposta loucura. - Não. Eu te prometo tudo o que você quiser. – Ele parara à minhas costas. Parecia me observar. E sua voz começava a traí-lo.

- Não quero tudo. Quero respostas.

- Todas que você quiser.

- O que era aquilo? – Desafiei, apontando para o ponto onde a criatura fora jogada. – Por que ela temeu a você?

Ele balançara a cabeça negativamente.

- Eu sabia. Você não pode me prometer nada. – Continuei com minha caminhada em direção ao calçadão.

Agora eu corria. A luz foi ficando para trás, tirando toda a claridade racional que me enfatizava em mentes.   A luz do poste da rua a alguns metros me fez recuar. Havia uma sombra, e meus pés não obedeciam a meus sinais cerebrais. Agora eu corria pela areia, em direção ao mar. Era difícil, era como um feitiço irreversível.

Senti suas mãos geladas tocarem meu braço, fazendo com que eu parasse e me virasse sem olhar para cima.

A areia, a franja; eram todo o meu refúgio.

- Eu não escolhi isso. – Sua voz era tremula. Sua voz era piedosa.

- Se há algum jeito de acabar com isso... me fale. – Ele levara seu indicador ao meu queixo, levantando vagarosamente meu rosto na direção do seu, fazendo então, com que meu olhar encontrasse o seu que naquele momento me fazia soluçar mais e mais. – Me ajude.

Ele não falara. Apenas me envolveu em seu abraço caloroso e protetor.

E naquele momento eu novamente me sentira protegida por uma alma desconhecida e ao mesmo tempo  reconhecível a mim.

- Você está errada. – Disse a mim. – Eu posso lhe prometer nunca mais lhe deixar só. Prometo fazer-lhe nunca mais temer.

As lágrimas começavam a cessar, e meu rosto se encontrava afogado em seu ombro.

- Quando você precisar, quando você me chamar. A cada lágrima derramada, a cada suspiro estranho, a cada vontade obscura... Eu estarei aqui; junto a ti.

Eu levantara a cabeça para que em fim pudesse observá-lo sem temores. E quando seus olhos deram de encontro aos meus, eu estive certa de uma coisa: Agora tudo poderia se acalmar.

Acontecera tudo simultaneamente. Acontecera de modo que eu não momentaneamente planejara.  Agora eu teria o meu anjo da guarda, meu protetor oculto da noite. E minha luz dentro das trevas se fazia presente novamente.

Eu tinha meu fantasma em companhia.

O meu fantasma da meia noite estava de volta.

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5 Comentários

  1. Ual, adorei o texto *-*
    prendeu minha atenção do inicio ao fim *-*
    Feliz Aniversário ^^
    tudo de bom pra vc!!

    bjus =*

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  2. Nooossa esse final ficou incrivel!
    Perfect msm!
    E feliz niver pra vc.

    bju:)

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  3. Parabéns, pelo texto e pelo niver. AAHAUAHUAHUAHUAH Escreve muito bem ;)

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Oii bru, é o dudu. Ficou melhor do que eu esperava, sempre me surpreendo com seus textos. Não sei como, mas você consegue colocar sentimentos imensos nas palavras. Incrivel, como se as palavras saissem da tela e flutuava no ar.
    E Bruu, feliz aniversario ! Espero que sempre tenha sucesso na vida e que suas historias toquem cada vez mais as pessoas.!
    Felicidades ! s2

    dudu.:) !

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Obrigada pela visita! ♥

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